3M, BYD Trucks, Cluster NL, Delectrico e Traxión traçam em Monterrey a rota para eletrificar a logística mexicana

No âmbito da cúpula Latam Mobility North America 2026, realizada no município de San Pedro Garza García, em Monterrey, México, aconteceu o painel intitulado “Da primeira à última milha: apostas e inovação do setor empresarial mexicano“.

O encontro, que reuniu algumas das vozes mais autorizadas do setor de logística e mobilidade no México, serviu como um termômetro para medir o avanço, as barreiras e as oportunidades que o país enfrenta em seu caminho rumo à descarbonização do transporte.

A sessão, moderada por Guillaume Fouché, Diretor de Negócios para a América Latina da BloombergNEF, contou com a participação de Ramón Muñozcano, Fundador, CEO & Diretor Geral do Cluster de Logística de Nuevo León; Julio Muñoz, Diretor para a América Latina de Transporte e Eletrônicos da 3M; Julio Hernández, Diretor Comercial da Delectrico; Antonio Tejedo, Vice-presidente de Relações com Investidores do Grupo Traxión; e Anel Hernández Serrano, Diretora de Marca da BYD Trucks.

Durante quase uma hora, os especialistas compartilharam suas perspectivas sobre o complexo cenário que envolve a migração de frotas de combustão interna para tecnologias mais limpas, em um ambiente marcado pela urgência climática, viabilidade financeira e o fenômeno do nearshoring.

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O retrato do presente

Ramón Muñozcano abriu o diálogo pintando a realidade vivida nas estradas do norte do México. “Após a rodovia La Gloria-Colômbia, as travessias pela Ponte Internacional Solidaridad aumentaram exponencialmente.”

“Isso motivou vários de nossos associados a realizar travessias com caminhões elétricos, aproveitando a eficiência dessa rota para reduzir sua pegada de carbono”, explicou o diretor do Cluster de Logística de Nuevo León.

Mas Muñozcano foi além do diagnóstico e detalhou as ações concretas que estão sendo promovidas através da hélice tripla. “Estamos trabalhando com o governo do estado para instalar eletropostos perto do porto de Colômbia. Também promovemos paradas seguras e comitês específicos de mobilidade, infraestrutura, sustentabilidade e talento humano.”

“Porque hoje, sem talento humano capacitado, não podemos avançar. Se queremos ser um hub logístico de classe internacional, precisamos ter tudo bem lubrificado, desde a engrenagem mais pequena, as microempresas, até as maiores”, declarou.

Decisão ambiental ou econômica?

Guillaume Fouché lançou a pergunta que iniciou o debate: “Eletrificar frotas no México neste momento, é uma decisão ambiental ou realmente econômico-financeira?”

Antonio Tejedo, do Grupo Traxión, respondeu com a experiência de quem opera uma das maiores frotas do país. “Acredito que o que começou como uma decisão ambiental e uma preocupação genuína, hoje, depois de seis anos no mercado, as empresas puderam comprovar que a redução dos custos operacionais também é muito boa. Há pouco, ouvi alguém dizer que ser ecológico é sinônimo de economia lógica”, afirmou.

No entanto, Tejedo trouxe os pés ao chão ao falar sobre barreiras concretas. “Além do econômico e financeiro, está a infraestrutura para carregar. O primeiro desafio é o preço das unidades: um caminhão ou ônibus elétrico é cerca de 50% mais caro. A isso, soma-se o investimento em infraestrutura para carregar as baterias. Acreditamos que os clientes ainda não estão prontos para absorver esse aumento de preço. Precisamos nos encontrar no meio do caminho: as empresas operadoras, os clientes e os fornecedores”, pontuou.

Julio Hernández, da Delectrico, não hesitou em aumentar a aposta. “Hoje temos a oportunidade, como geração, de corrigir algo que está afetando a todos nós: a poluição. O nível de emissões de CO2 gerado por um caminhão tractor a diesel é relevante, mas não tão relevante quanto o nível de emissões de material particulado de 2,5 mícrons, que nos mata.”

“Nas zonas mais limpas da Cidade do México, o nível de emissões equivale a uma pessoa consumir dois cigarros por dia. A expectativa de vida só por morar lá já é reduzida em um ano. Se formos para as partes mais poluídas, o equivalente é sete cigarros diários”, revelou com crueza.

Além disso, Hernández explicou como conseguiram contornar a barreira econômica. “O que fizemos foi modificar os esquemas de financiamento, porque são ativos completamente diferentes. Sua garantia subjacente é distinta. Negociamos com a China para que os volumes fossem maiores e os preços caíssem. A van que temos fora da cúpula custa 998.000 pesos: 13,2 metros cúbicos, 1,2 toneladas. É uma questão de tornar isso massivo”, afirmou.

O fator humano e a resistência à mudança

Anel Hernández Serrano, da BYD Trucks, tocou num ponto sensível que raramente é discutido: o medo. “O maior medo é a resistência das pessoas à mudança. Se você não capacita, não as instrui, elas voltam a dizer: ‘Ei, por que eu conectaria meu carro elétrico se vou usar eletricidade gerada com combustível?’ Ou ‘O que vai acontecer com as baterias daqui a 15 anos?'”

“É ir trabalhando pouco a pouco com esse medo. As novas gerações estão crescendo com isso. Nós, das gerações mais velhas, é que ainda estamos relutantes em dar esse salto para a mudança”, refletiu.

Na BYD, a estratégia é clara: acompanhamento total. “O acompanhamento é muito importante. Fazemos levantamentos para ver se eles têm a capacidade energética necessária para ter um certo número de unidades. Ao mesmo tempo, buscamos parceiros estratégicos. E capacitamos os operadores; ensinamos que não se pode dirigir um elétrico como um a combustão, porque é totalmente diferente”, indicou.

“O convite da BYD Trucks é para conhecer nossos modelos, fazer testes piloto com telemetria e tomar a melhor decisão com base nos TCOs (custo total de propriedade)”, explicou.

Julio Hernández, Antonio Tejedo e Anel Hernández Serrano

Ciência, materiais e autonomia

Julio Muñoz, da 3M, trouxe a visão do fornecedor de tecnologia. “Um veículo a combustão tem de 30.000 a 50.000 peças. Um veículo elétrico tem entre 50% e 70% desse número. Das quais, mais ou menos 70% ainda são comuns, mas 30% não são. Conhecemos as peças dos veículos a combustão há 100 anos; as pessoas sabem como gerenciá-las e manuseá-las. Num veículo elétrico, ainda nos falta treinamento para gerenciá-lo”, diagnosticou.

Muñoz detalhou os desafios técnicos enfrentados. “É muito mais simples fazer um veículo elétrico, mas os materiais são diferentes. A bateria é um problema: dá autonomia, mas também tem desafios. Como fazer para não aquecer e durar 600 quilômetros? Como fazer para o veículo consumir menos, gerenciando bem a acústica ou o calor? Nisso somos especialistas, e isso permite aproximar-se da eficiência dessas novas tecnologias”, garantiu.

Sobre o fim da vida útil das baterias, Muñoz foi claro: “Os materiais tendem a ser recicláveis com o tempo. Hoje, uma bateria não é totalmente reciclável, é uma realidade. Mas as tecnologias estão avançando para que sim, a tendência é que seja reciclável. Já existem empresas que recuperam baterias para armazenamento de energia, bancos de baterias.”

Julio Hernández complementou com um dado animador: “Nós pensávamos que no quinto ano a bateria iria degradar para 75%. Com 128 tratores, temos 94% de degradação, ou seja, apenas 6% de perda. Como conseguimos isso? Capacitando o operador. Aí está a chave.”

Infraestrutura, insegurança e o preço da saúde

Ramón Muñozcano voltou a palavra para abordar um tema espinhoso: a segurança. “Hoje, no transporte, não se tem aquela autonomia necessária para dizer ‘sim, vou comprar um caminhão tractor elétrico que custa muito mais caro e ainda tenho que esperar muito mais tempo para carregar’. E some a isso a insegurança no México. Não se pode arriscar ficar parado numa estrada perigosa”, afirmou.

Julio Muñoz acrescentou uma reflexão sobre o custo de oportunidade. “A questão do hidrogênio também requer infraestrutura, e isso tem equilibrado as coisas para o lado elétrico. Mas a infraestrutura de eletropostos é importante por coisas básicas: você quer entrar no seu carro e saber que vai chegar. Precisamos desenvolver eletropostos para gerar essa confiança. Não há nada pior para uma empresa de transporte do que ter a dúvida se vai chegar ou o que acontece se ficar pelo caminho”, pontuou.

Por sua vez, Guillaume Fouché trouxe dados da BloombergNEF que contextualizaram a discussão. “Na última década, o preço da bateria caiu 85%. No ano passado, vimos uma queda de 15% no custo das baterias de lítio.”

“Em 2019, o México não chegava a 1% das vendas de veículos elétricos de passageiros; no ano passado, chegou a 6%. Para 2040, acreditamos que 1,3 milhão de veículos elétricos de passageiros possam ser vendidos. Isso implica preparar o país para a maioria dos veículos elétricos, e isso passa por energias renováveis e antecipar a demanda de eletricidade”, explicou.

Fouché revelou uma projeção impactante: “Para 2050, prevemos 600 terawatts-hora de demanda de eletricidade no México, quase o dobro de hoje, impulsionado por ar condicionado, centros de dados e veículos elétricos. A pergunta é: seremos capazes de ter todos esses caminhões e veículos elétricos no país?”

Julio Muñóz, Julio Hernández e Antonio Tejedo

O futuro: IA, autonomia e a urgência de agir

Julio Hernández compartilhou a experiência da Delectrico com a inteligência artificial aplicada. “A van que temos, embora não seja autônoma nível cinco, aparece na especificação técnica como nível quatro porque integra IA para medir as trajetórias das unidades ao redor. Não dá tanta manobrabilidade ao operador. Hoje temos 300 unidades operando, e o seguro, a apólice é mais barata porque resulta que há um benefício. A IA aplicada está sendo mais rápida do que pensamos”, revelou.

Julio Muñoz acrescentou um fator crítico para a decolagem dos veículos autônomos: a infraestrutura viária. “O veículo, para se tornar autônomo, precisa saber ler e interpretar os sinais externos. Nós temos uma indústria muito forte em sinalização viária vertical e horizontal, que já incorpora tecnologia para que o veículo a reconheça.”

“O investimento em infraestrutura para desenvolver veículos autônomos tem que ser significativo, porque hoje ainda encontramos estradas que não estão bem sinalizadas. Por mais inteligente que seja o veículo, se a estrada não estiver sinalizada, ele vai se perder“, sentenciou.

Ramón Muñozcano encerrou sua intervenção com um exemplo concreto de eficiência. “Fizemos um estudo com telemetria analítica para antecipar desvios em travessias de fronteira. Os resultados foram tempos de inatividade 12% a 15% menores e quilômetros improdutivos reduzidos.”

“O impacto no diesel foi menos emissões, menos penalizações por atraso. E a sustentabilidade foi consequência da eliminação de ineficiências. Se a isso somarmos a tecnologia dos veículos elétricos ou híbridos, podemos gerar ainda mais economia e mais eficiência”, afirmou.

Mensagens finais: Vontade, alianças e ação

Julio Hernández resumiu o sentimento do painel com um chamado à ação. “Acredito que a mensagem que gostaria de deixar aqui é: façamos tudo o que estiver ao nosso alcance para fazer algo. Se pudermos migrar para a mobilidade elétrica, façamo-lo; gás natural, biodiesel, etanol, o que for, para travar isto que afeta a todos nós. Vamos fazer isso.”

Anel Hernández insistiu na necessidade de perder o medo. “Meu comentário seria: não ter medo dessa mudança de paradigma. Estar aberto a testar, conhecer, tomar uma decisão pensada, mas também testada. Eles fizeram pilotos, fizeram testes, e é aí que vivem, que sentem e dizem: ‘Não estão me contando, estou vivendo em tempo real’.”

Por sua vez, Antonio Tejedo citou Albert Einstein para encerrar. “Quero terminar com uma citação que diz que é preciso afastar-se das pessoas negativas porque elas têm um problema para cada solução.”

Enquanto Ramón Muñozcano lembrou que estão abertos a todas as iniciativas. “Convidamos vocês a procurar o Cluster. Temos um convênio com a Texas A&M para criar um laboratório de P&D focado em logística e mobilidade. Venham conversar conosco para iniciar novos desenvolvimentos com escolas como o Tec de Monterrey, a Universidade Autônoma de Nuevo León, que já têm laboratórios prontos para a indústria.”

Da esquerda para a direita: Ramón Muñozcano, Julio Muñoz, Julio Hernández, Antonio Tejedo, Anel Hernández e Guillaume Fouché

A conversa continua

A cúpula em San Pedro Garza García foi apenas o início de um percurso que levará este diálogo por toda a região. Será a oportunidade para continuar construindo, a partir do diálogo aberto e da colaboração multissetorial, o caminho para um futuro mais limpo, eficiente e sustentável para o transporte e a logística em toda a região.

Através de suas paradas em Cidade do México, Brasil, Colômbia e Chile, a plataforma continuará promovendo uma abordagem colaborativa para acelerar a transição para sistemas de transporte mais limpos, eficientes e inclusivos, posicionando a América Latina como um ator relevante na mobilidade sustentável em nível global.

Faça parte do movimento que acelera a transformação energética e urbana da América Latina. Se você quiser saber mais detalhes sobre como participar e opções de posicionamento, clique aqui.

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