Siti Park: a aposta para transformar a mobilidade urbana em um modelo exportável para a América Latina

No coração da região metropolitana mais dinâmica do norte do México, o Auditório San Pedro foi palco de uma apresentação que promete mudar a forma como concebemos a mobilidade urbana na América Latina.

Durante a cúpula “Latam Mobility North America 2026“, Gabriel Todd, Secretário de Desenvolvimento Urbano e Mobilidade de San Pedro Garza García, apresentou o “Siti Park“, um conceito inovador que busca resolver a equação mais complexa enfrentada pelo município: como gerenciar o fluxo massivo de veículos de fora sem sacrificar a qualidade de vida de seus residentes.

Com uma visão de futuro, Todd detalhou os pilares desta estratégia que, longe de ficar no papel, começará a ser implementada nos próximos meses. “Hoje vamos apresentar um tema muito interessante, muito importante para o futuro do município de San Pedro Garza García. É uma visão que vamos implementar nos próximos meses ou anos”, adiantou, captando a atenção dos participantes.

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Município pequeno, problemas de grande

O panorama pintado por Gabriel Todd não deixou dúvidas sobre a magnitude do desafio. A região metropolitana de Monterrey é composta por nove municípios principais, embora na realidade 20 sejam impactados pela dinâmica desta grande cidade.

Nesse contexto, San Pedro Garza García é um dos menores, com apenas 135.000 habitantes. No entanto, tem a particularidade de concentrar a maior renda per capita da América Latina em seu reduzido território.

Mas essa característica, longe de ser uma vantagem, tornou-se um ímã de mobilidade. “Passamos muito rapidamente de 2 para 3 milhões de carros no estado. Em San Pedro, temos registrados apenas 150.000 desses 3 milhões. No entanto, sete em cada dez pessoas ocupadas no município vêm de fora, de um desses 20 municípios que compõem a região metropolitana”, revelou Todd.

O resultado é um desequilíbrio enorme. “Vocês já podem imaginar: este pequeno município com 135.000 habitantes e 150.000 carros registrados, de repente recebe todas as manhãs, nos horários de pico, uma quantidade significativa de carros que dobra a que temos registrada. Ou seja, temos 300.000 carros adicionais circulando além dos que já estão registrados”, explicou.

Diante deste cenário, Todd foi enfático: “Estamos habituados a uma vida que viemos arrastando desde o século passado, onde qualquer aumento na renda das pessoas, a primeira coisa que compram é um carro novo ou uma casa. Estamos diante de um problema sistêmico importante e temos que começar a fazer as coisas de forma diferente se quisermos manter um nível de vida adequado.”

Siti Park: uma visão integral

Todd apresentou o Siti Park, um conceito que busca integrar múltiplas ferramentas já existentes em um único ecossistema de gestão urbana. “A ideia é como podemos ter um cadastro veicular real que seja o número de carros efetivos que dormem em San Pedro, para comparar com os que não dormem aqui”, explicou.

Um dos problemas atuais é a falta de clareza sobre quais veículos pertencem realmente ao município. “Embora tenhamos 150.000 carros registrados em um banco de dados do Estado, no município temos a particularidade de que há muitos empresários cujos automóveis estão registrados em outros municípios. Não fica claro quais carros dormem aqui e quais vêm de fora”, apontou.

A solução passa por vincular o pagamento do IPTU (imposto predial) com benefícios concretos na mobilidade. A proposta de Todd é audaciosa: “Por que não adicionar que, ao pagar o IPTU, o cidadão tenha pré-pago automaticamente uma porcentagem do pagamento dos parquímetros na sua zona?”, sugeriu.

“Estamos acostumados a ver os parquímetros como aqueles instrumentos feios, metálicos, criados em 1952, que ficaram na nossa psique. Mas hoje em dia, com a tecnologia, isso ficou para trás. Agora você pode, através de um aplicativo tecnológico, ter o mesmo serviço com o celular”, disse.

A tecnologia como aliada

O modelo Siti Park sustenta-se em dois aplicativos tecnológicos que já operam no município e que serão integrados para criar um sistema único.

Por um lado, o Kigo, a empresa privada que atualmente gerencia os parquímetros públicos e privados em San Pedro. Por outro lado, o Pool, um aplicativo de carona que já é utilizado com sucesso na Universidade Autônoma de Nuevo León e que esta semana começará um teste piloto com os próprios funcionários do município.

“Esses dois aplicativos se fundem e criam um modelo único para San Pedro que nos permite dar incentivos a todos aqueles que chegarem em carona para que possam estacionar de graça, se necessário. Se vierem quatro pessoas num veículo, significa que deixaram três fora do município, então não tenho mais o caos no trânsito”, explicou Todd.

O objetivo é claro: reduzir esses 300.000 carros adicionais que causam congestionamento nos horários de pico de forma inteligente e eficaz.

“Se começarmos a controlar, a focar nossas baterias na gestão do espaço público, abrem-se grandes áreas de oportunidade. Você pode regular o espaço público por motivos de segurança, vai ter um controle mais efetivo do seu cadastro veicular e, finalmente, poderá dar aos que pagam o IPTU as vantagens desse pagamento”, enfatizou.

Desincentivar a ocupação prolongada

Outro dos pilares do modelo Siti Park são as tarifas progressivas, projetadas para desincentivar a ocupação prolongada das ruas por visitantes.

“O parquímetro pode ser regular: 10 pesos a primeira hora, 10 pesos a segunda hora, e a partir da terceira hora, 40 pesos. Isso obriga o indivíduo que precisar deixar o automóvel o dia todo a procurar uma propriedade privada para isso, vir de carona, ou utilizar um esquema de Park and Ride“, detalhou Todd.

E, como salientou o secretário, o município conta com uma infraestrutura subutilizada que pode ser aproveitada. “No Paseo San Pedro, temos três pisos de estacionamento com excesso de capacidade, no Punto Valle também. Há muitos espaços disponíveis que podem ser usados para um esquema de Park and Ride“, observou.

A lógica econômica por trás desta proposta é contundente. Todd questionou a disparidade atual: “Você vai a um terreno baldio no centro de Monterrey e te cobram 30 pesos a hora, enquanto o parquímetro público está a 2 ou 5 pesos. Por que deixar meu veículo particular, que é um bem privado, deve custar zero ou ser grátis se é público, e deve custar 30 pesos se é privado? No mínimo, deveria custar pelo menos o mesmo.”

Para Todd, essa “falta de autoestima do público” nos levou a “dar um tiro no pé e criarmos problemas de congestionamento de forma sistemática”. A solução passa por recuperar o valor do espaço público, dar-lhe o valor que tem para nos regular e diminuir o congestionamento ao longo do tempo.

Do manual ao tecnológico

Todd foi claro ao afirmar que se trata de uma visão para o futuro que será implementada de forma gradual. “Obviamente ainda não estamos implementando. Estamos vendo de que forma, no futuro, poderemos levá-la bairro por bairro para benefício dos moradores“, esclareceu.

O plano contempla uma primeira fase mais simples: “Primeiro, vamos beneficiar com um esquema manual de simplesmente colocar uma linha amarela ou da cor que for determinada para que seja de uso exclusivo dos moradores residentes, onde só os vizinhos possam estacionar na sua zona. Depois, desceremos para a proposta tecnológica através dos aplicativos.”

O objetivo final é claro: “O que queremos é devolver ao morador sua paz e sua tranquilidade, e ao que visita, que nos ajude e que se organize melhor com a carona, ou que use o transporte público, ou que procure estacionar numa propriedade privada. E que o próprio mercado também tenha inovação.”

Um dos aspectos mais relevantes da apresentação de Todd foi sua insistência em que este modelo não é exclusivo de San Pedro, mas pode ser replicado em outros municípios do México e da América Latina.

E concluiu com um convite aberto: “Esta é a forma como vemos que podemos avançar através deste conceito integral chamado Siti Park, onde convergem três ou quatro conceitos que já existem para melhorar nosso nível de vida em San Pedro Garza García. E é uma ideia que também pode ser exportável para outros municípios.”

A conversa continua: Turnê 2026 da Latam Mobility

A palestra principal de Gabriel Todd em San Pedro Garza García marcou um marco na cúpula “Latam Mobility North America 2026“, demonstrando que a inovação em mobilidade urbana não vem apenas da tecnologia, mas também de uma mudança profunda na forma de conceber e gerir o espaço público.

Esta conversa sobre o futuro das cidades e a mobilidade sustentável continuará ao longo do ano nos principais mercados da região.

Através de suas paradas em Cidade do México, Brasil, Colômbia e Chile, a plataforma continuará promovendo uma abordagem colaborativa para acelerar a transição para sistemas de transporte mais limpos, eficientes e inclusivos, posicionando a América Latina como um ator relevante na mobilidade sustentável em nível global.

Faça parte do movimento que acelera a transformação energética e urbana da América Latina. Se você quiser saber mais detalhes sobre como participar e opções de posicionamento, clique aqui.