Em um cenário de incerteza econômica, mudanças bruscas nas políticas federais e uma recessão persistente no transporte de cargas, os gestores de frotas na América do Norte estão redefinindo suas estratégias de sustentabilidade.
De acordo com a sétima edição do relatório “State of Sustainable Fleets 2026 Market Brief”, a indústria superou a visão de apostar em uma única solução tecnológica, como a eletrificação total, para adotar uma abordagem de “neutralidade tecnológica”.
Este novo paradigma baseia-se na diversificação de investimentos em diesel limpo, gás natural, propano e veículos elétricos a bateria, com o objetivo de mitigar riscos operacionais e financeiros.
O relatório, apresentado durante a Advanced Clean Transportation (ACT) Expo em Las Vegas, foi elaborado pela TRC Companies (empresa membro da WSP), com patrocínio principal da Penske Transportation Solutions e da Volvo Trucks North America, e apoio da Exelon Companies e da S&P Global Mobility.
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Um cenário de ruptura sem precedentes
O State of Sustainable Fleets 2026 Market Brief chega em um momento que analistas classificam como o ambiente operacional mais complexo da história do transporte de cargas moderno.
A indústria enfrenta uma convergência de pressões que incluem uma recessão no transporte de mercadorias que já se estende pelo terceiro ano consecutivo, bem como aumentos de custos vinculados a tarifas que podem adicionar até US$ 35.000 por caminhão novo.
O cenário regulatório também sofreu uma transformação radical: o relatório detalha a reversão dos padrões federais de gases de efeito estufa para veículos, a eliminação dos créditos fiscais para veículos de emissão zero (ZEV) – que chegavam a US$ 40.000 por unidade elegível de médio e grande porte – e o cancelamento de fundos federais para transporte limpo.
Essas mudanças desmantelaram a estratégia federal anterior, dando lugar a um sistema descentralizado impulsionado por políticas estaduais e fatores de mercado.

A diversificação como estratégia financeira
Apesar desse cenário, o relatório não descreve uma indústria em retirada, mas sim em plena adaptação estrutural. A conclusão central é clara: “As frotas que gerenciam o custo total de propriedade (TCO) por meio de um portfólio de tecnologias de propulsão, em vez de se concentrarem em uma única solução ou esperarem a incerteza passar, estão demonstrando uma resiliência notavelmente maior.”
Em uma economia onde choques externos podem alterar rapidamente a rentabilidade de qualquer tecnologia, incluindo o diesel convencional, a diversificação de sistemas de propulsão tornou-se tanto uma estratégia financeira quanto um imperativo de gestão de riscos.
Nate Springer, vice-presidente de desenvolvimento de mercado do grupo de Soluções de Transporte Limpo da TRC, explicou esta nova visão: “Em muito pouco tempo, passamos de perguntar ‘qual é o melhor trem de força movido por IA?’ para perguntar ‘como uso cada um onde funciona melhor para gerenciar custos e incertezas?'”
“A adoção de múltiplas tecnologias avançadas e limpas para frotas de médio e grande porte surgiu como a estratégia definidora, em vez da retirada que muitos haviam previsto”, acrescentou.
Combustíveis renováveis e eletrificação seletiva
O relatório documenta um crescimento sustentado no uso de combustíveis alternativos. De acordo com dados da S&P Global Mobility citados no relatório, mais da metade das frotas pesquisadas (56%) utiliza diesel renovável ou biodiesel.
Por exemplo, na Califórnia, esses dois combustíveis renováveis juntos deslocaram 74% do diesel de petróleo usado no transporte durante 2024.
O gás natural também mostra resultados positivos. O motor Cummins X15N de 15 litros completou seu primeiro ano comercial com desempenho semelhante ao diesel e claras vantagens de custo: 71% das frotas que operam com este motor relataram economia em comparação ao diesel, e 59% relataram economia em comparação a outros veículos a gás natural.
Além disso, o gás natural renovável (GNR) substituiu 97% do gás natural usado na Califórnia nos primeiros três trimestres de 2025, oferecendo uma redução de 301% nos gases de efeito estufa em relação ao diesel com base no ciclo de vida.
Na frente da eletrificação, os registros de veículos elétricos a bateria de médio e grande porte aumentaram 21% em 2025. As descobertas do relatório indicam que os caminhões elétricos estão entregando menores custos operacionais do que os veículos que substituem, e a adoção está concentrada em aplicações com rotas previsíveis e retorno à base.

Financiamento, adoção de IA e hidrogênio
Apesar dos cortes federais, o relatório estima que mais de US$ 5 bilhões anuais de programas estaduais, locais e de concessionárias continuarão disponíveis até 2028 para apoiar o investimento em frotas limpas. Esse ecossistema de financiamento descentralizado tornou-se um pilar fundamental para a transição energética do setor.
Paralelamente, o relatório destaca a rápida integração da inteligência artificial (IA) nas operações de frotas. Aproximadamente metade das frotas pesquisadas usa IA para otimização de rotas, despacho, manutenção preditiva e diagnósticos, com usuários relatando economia de custos, maior disponibilidade dos veículos e melhor aproveitamento da frota.
Projeta-se que, até 2027, 35% das frotas estarão habilitadas com IA, quase dobrando os 20% estimados em 2025.
Em contraste com outras tecnologias, o relatório aponta que o hidrogênio continua sendo um caso à parte. Os custos para as frotas atingiram US$ 18,86 por quilograma após incentivos, o que representa um sobrepreço de 89% a 135% em comparação ao diesel. O cancelamento de fundos federais para os polos de hidrogênio limpo e a saída de duas startups de veículos a célula de combustível Classe 8 deixaram o segmento em sua posição mais difícil até hoje.
A maturação do mercado continua
O State of Sustainable Fleets 2026 Market Brief conclui que, longe de recuar, o mercado de tecnologias para frotas sustentáveis continua amadurecendo. A estratégia vencedora para enfrentar a incerteza não é mais buscar a solução milagrosa, mas construir um portfólio equilibrado de tecnologias que permita às empresas navegar com sucesso em um mar de mudanças regulatórias, econômicas e energéticas.
“As frotas que adotam uma estratégia tecnológica diversificada estão melhor posicionadas para absorver as disrupções tarifárias, os cortes de fundos federais e a prolongada fraqueza do mercado de cargas”, afirma o relatório.
Para os líderes de frotas, a nova norma é a resiliência por meio da diversificação: um portfólio equilibrado que combina diesel limpo, gás natural, propano e opções elétricas, gerenciado sob a ótica do custo total de propriedade.
Longe de representar um retrocesso na agenda de sustentabilidade, esta abordagem de “neutralidade tecnológica” se consolida como o roteiro mais inteligente e pragmático para enfrentar a tempestade, garantindo que a transição energética não seja apenas viável, mas também financeiramente sustentável.
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