O encerramento do Latam Mobility & Net Zero Brasil 2026 ficou por conta do painel “LATAM Regional Hub: Mercado internacional de energia e mobilidade eletrificada” . O espaço reuniu referências dos setores energético, diplomático, tecnológico e associativo para debater como o Brasil e a região podem se tornar um hub latino-americano de energia e mobilidade sustentável, conectando investimentos, inovação e mercados internacionais.
O painel foi moderado por Rubens Morelli, jornalista-chefe do Canal VE, e contou com a participação de Bernardo Marangón, CEO do Canal Solar; Criss Díaz, responsável pela Área Comercial do Consulado do Paraguai em São Paulo; Francis Aquino, diretora de Operações da Órbi; e Márcia Loureiro, diretora Conselheira da ABVE (Associação Brasileira de Veículos Elétricos).
Ao longo do debate, os especialistas concordaram que a região tem vantagens naturais únicas, mas precisa articular políticas de Estado, harmonização normativa e uma aposta decidida na inovação e no financiamento.
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Transformar a vantagem natural em vantagem competitiva
Rubens Morelli abriu o painel com a pergunta central: como transformar a vantagem natural da América Latina em uma vantagem competitiva real? A resposta, segundo os painelistas, passa pela execução, pela articulação entre países e pelo aproveitamento dos recursos de fomento disponíveis.
Francis Aquino, diretora da Órbi – instituição que recentemente pivotou de hub para instituto de ciência e tecnologia – destacou que existem 699 bilhões de reais destinados a tecnologia e inovação até 2029 por meio de fundos como FINEP, FAPEMIG e outras agências de fomento.
“Se você tem um projeto e não está olhando para essas fontes, você já está atrasado” , alertou. Aquino revelou que sua instituição ajudou a estruturar 13 projetos, dos quais 10 foram aprovados por bancas científicas, envolvendo empresas como MRV, Inter e Morgel. “Tem dinheiro na mesa. A pergunta é como a gente vai buscá-lo para tornar o Brasil mais competitivo” , afirmou.
Além disso, ela trouxe um dado: o Brasil tem um déficit de 530 mil profissionais na área de tecnologia. Por isso, a Órbi também está atuando na formação de lideranças em inteligência artificial e tecnologias emergentes. “Não se trata de ferramentas, mas de entender quais frentes vão me tornar mais competitivo” , explicou.

Canal Solar: oportunidades antes de olhar para fora
Bernardo Marangón, CEO do Canal Solar, trouxe uma visão pragmática do setor privado. Ele apontou que o grande demandante de energia no mundo hoje é a inteligência artificial, e que a América Latina está ficando à margem dessa corrida por falta de capacidade de rede e de regulações adaptadas.
“Os data centers nos Estados Unidos consomem volumes de energia que a nossa rede nem sequer consegue absorver” , alertou.
No entanto, Marangón destacou que o Brasil está mais avançado em energia solar do que o resto da região (com exceção do Chile em baterias), e que a mobilidade elétrica está crescendo ainda mais rápido do que o mercado de baterias.
Para os investidores estrangeiros, o grande desafio é entender as regras de cada país, porque o setor elétrico é altamente regulado e varia mesmo dentro de uma mesma nação. “Eu, como empresário brasileiro, prefiro continuar explorando as enormes oportunidades que o Brasil ainda tem antes de me aventurar em outros países onde não conheço a regulação” , afirmou.
No entanto, reconheceu que muitos amigos empresários estão olhando para o Paraguai por causa da questão tributária.
ABVE: alianças e financiamento
Márcia Loureiro, da ABVE, colocou o foco nas alianças binacionais como o caminho mais viável. Citou como exemplo emblemático Itaipu, um caso de sucesso com financiamento internacional que combina hidrodependência e cooperação.
“Falamos de projetos estruturantes, de infraestrutura, de investimento de longo prazo. Tem que haver algum tipo de subsídio” , explicou.
Loureiro lembrou que a América Latina tem uma matriz energética com 60% de fontes renováveis em média (e o Brasil alcança 83% ), o que constitui uma vantagem estratégica. Mas para aproveitá-la, é necessária articulação política e regulatória no âmbito do Mercosul.
“A energia deve ser pautada como uma prioridade de segurança nacional, assim como o petróleo e o gás” , defendeu. Além disso, introduziu um tema ausente até aquele momento: os ativos ambientais e os créditos de carbono, que também fazem parte da cadeia de valor da eletromobilidade.
Suas palavras finais foram importantes: “Assim como na década de 70 tivemos o programa ProÁlcool, hoje a mensagem é: carro elétrico, um dia você vai ter um. Está muito perto. Experimentem, informem-se” .
Paraguai: uma agenda de harmonização normativa
Criss Díaz, representante do Consulado do Paraguai em São Paulo e funcionária do Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai, compartilhou a realidade de seu país: praticamente toda a geração elétrica é 100% renovável graças à usina hidrelétrica de Itaipu.
No entanto, reconheceu que o Paraguai ainda tem muito a fazer em matéria de mobilidade elétrica, especialmente na instalação de pontos de recarga e no desenvolvimento de leis para energia solar, carvão vegetal e biocombustíveis.
Díaz sublinhou a importância da harmonização normativa regional. “Se vamos incentivar o uso do carro elétrico, precisamos que as normas do Paraguai e do Brasil se complementem. Onde os carregadores podem ser instalados? Podem ser montados no Paraguai sob regime de maquila?” , questionou.
Sua mensagem foi clara: o Paraguai tem o compromisso de deixar de ser “o patinho feio” da região e continuar gerando confiança para atrair investimentos, assim como fez há 20 anos com as leis de maquila.

O papel da inovação e da educação tecnológica
Francis Aquino aprofundou a necessidade de conectar a academia com a demanda do mercado. Ela trabalhou no programa Rota 2030 (hoje Mover ) e afirmou que a potência do capital intelectual brasileiro é enorme quando alinhada a problemas reais. “Não se trata apenas de inteligência artificial, mas de colocar capital intelectual a serviço da próxima fronteira do conhecimento” , disse.
Além disso, anunciou que a CEMIG já assinou um contrato com a Órbi para transformar Lagoinha, uma região vulnerável de Belo Horizonte, em um polo multissetorial de transição energética. “Estão todos convidados a fazer parte desse movimento” , concluiu.
Por fim, Rubens Morelli, no encerramento, agradeceu aos painelistas e à Latam Mobility por seu trabalho de unir formadores de opinião, tomadores de decisão e executivos. Márcia Loureiro acrescentou um conselho para a audiência: “O TCO (custo total de propriedade) já é favorável. Experimentem, informem-se e, se fizer sentido para vocês, avancem” , instigou.
Bernardo Marangón expressou seu desejo de que em 10 anos a América Latina esteja exportando energia renovável para o mundo, porque a transição energética global assim o demanda. Criss Díaz reafirmou o compromisso do Paraguai de continuar desenvolvendo normas amigáveis e mantendo a confiança dos investidores.
E Francis Aquino fechou com um sonho: “Que em 2029 possamos contar ao mundo quantos bilhões de reais o Brasil capturou porque pensou de maneira criativa para o seu território” .
O painel deixou várias certezas: a América Latina tem os recursos, o capital intelectual e as fontes de fomento; o que falta é planejamento de longo prazo, harmonização regulatória entre países e uma aposta decidida na inovação.

Um 2026 de consolidação para a mobilidade
O Tour Latam Mobility 2026 continua sua jornada. O próximo encontro será em Medellín, Colômbia, nos dias 10 e 11 de junho, e depois chegará a Santiago, Chile, em 25 de agosto, reunindo especialistas e atores estratégicos para fortalecer ainda mais o ecossistema de mobilidade sustentável na região.
O tour terminará na Cidade do México nos dias 12 e 13 de outubro, junto com o Climate Economy Forum, num evento que reunirá grandes referências do setor para continuar impulsionando a transição para sistemas de transporte mais eficientes, sustentáveis e de baixas emissões na América Latina.
A transição já está em curso. O Tour 2026 da Latam Mobility será o ponto de encontro para acelerar decisões, conectar os atores‑chave e construir, de forma colaborativa, a mobilidade sustentável da América Latina.



