No âmbito da cúpula “Latam Mobility North America 2026“, o município de San Pedro Garza García foi palco de um diálogo profundo e multidisciplinar sobre o verdadeiro significado das cidades inteligentes em contextos industriais e metropolitanos.
O painel, intitulado “Cidades Inteligentes em Contextos Industriais e Metropolitanos: Dados, Infraestrutura e Mobilidade Urbana“, reuniu vozes do governo municipal, academia, cooperação internacional e iniciativa privada para discutir como construir cidades mais habitáveis em um ambiente de crescimento acelerado.
A moderação ficou a cargo de Carolina Santos, coordenadora técnica do programa DeveloPPP da GIZ Cooperação Alemã, que articulou as diferentes perspectivas dos painelistas: Elizabeth Garza, presidente do Colégio de Engenheiros Civis de Nuevo León; Gabriel Ponce Elizondo, Diretor de Mobilidade de San Pedro Garza García; Margarita Iskandarova, GR, Latin American Markets da JET; e Jorge Murrieta González, diretor geral da Machine Care.
O que se seguiu foi uma conversa que transcendeu a abordagem puramente tecnológica para aprofundar-se nos aspectos humanos, culturais e de governança que determinam o sucesso ou fracasso das políticas de mobilidade na região.
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O desafio de se mobilizar
Gabriel Ponce Elizondo falou para contextualizar o momento vivido pelo município-sede. “Para San Pedro, a questão da segurança será sempre a mais importante, mas está praticamente resolvida. É o município com a melhor percepção de segurança em nível nacional. A partir daí, as pesquisas nos mostram que o próximo grande problema, e de longe, é a questão da mobilidade“, reconheceu.
O Diretor de Mobilidade compartilhou as conquistas de sua administração: “Hoje podemos conectar aproximadamente 130.000 pessoas mensalmente em nossos circuitos sociais, além daquelas que movimentamos nas rotas escolares e universitárias. Estamos crescendo cada vez mais. É um sistema baseado nas necessidades das pessoas; é aí que reside o sucesso. O mais importante tem sido ouvir o cidadão, ouvir o usuário para entender suas necessidades.”
No entanto, Ponce identificou um problema fundamental que transcende a infraestrutura. “Sem dúvida, o município de San Pedro tem se caracterizado por uma participação cidadã muito forte. Mas há um ponto que não é apenas uma necessidade do município, mas talvez de todo o país e grande parte da América Latina: a questão da cultura no trânsito. A cultura e a mentalidade que temos para nos locomover e dirigir é o que eu colocaria em primeiro lugar.”
E revelou um dado impressionante: “Hoje, mais de 90% dos veículos que circulam em San Pedro transportam apenas uma pessoa. Esse é um grande problema de mobilidade. Estamos apostando no transporte público; essas 130.000 viagens são uma boa porcentagem, mas é insuficiente. A cultura de como nos movemos é na que eu apostaria. Campanhas de cultura no trânsito para motoristas, e até para pedestres.”
Ponce também defendeu uma abordagem abrangente: “Nem tudo se resolve com transporte público ou calçadas melhores. É um combo: patinetes, micromobilidade, transporte público, calçadas melhores, rampas, caronas, aplicativos tecnológicos. Uma reestruturação definitiva também é necessária. Como engenheiros, sabemos disso; temos que empurrar nessa direção também.”

Micromobilidade e Dados
Margarita Iskandarova trouxe a perspectiva global da JET, uma holding de micromobilidade urbana presente em oito países, com mais de 100.000 patinetes elétricos em todo o mundo. “Estamos aqui no México para compartilhar nossa experiência e lançar nosso projeto em vários municípios em versão própria e através de colaboração público-privada”, anunciou.
Para Iskandarova, o valor da micromobilidade vai além do serviço em si. “Temos muita experiência em coletar dados e apresentá-los a governos para tomar decisões baseadas em dados. Nossos patinetes são de nova geração; são como sensores móveis que podem gerar dados de GPS e depois fornecer esses dados em relatórios específicos para aplicar na governança e criar estratégias de mobilidade, transporte e nova estrutura urbana”, explicou.
A executiva enfatizou a importância da colaboração público-privada que respeita a privacidade. “Os dados que coletamos não são personalizados; seguimos as leis de proteção de dados. Mas conseguimos coletar muitas informações específicas para criar uma cidade mais tecnológica. Essa combinação de tecnologia, governança estratégica e nosso potencial de micromobilidade, junto com todos os outros atores, pode criar algo único aqui neste município, neste estado, no México“, afirmou.
E transmitiu uma mensagem de otimismo: “O maior salto na mobilidade ocorre quando novas tecnologias são combinadas com governança estratégica baseada em dados. Estamos muito felizes no México porque vemos que a governança aceita nossas propostas, adaptamos protocolos, localizamos práticas e criamos algo único nacionalmente.”

Formar talento desde a infância
Jorge Murrieta González apresentou a visão da Machine Care, uma empresa mexicana com 20 anos de experiência em sistemas automatizados de teste e diagnóstico, que deu um passo adiante na formação de novas gerações. “Assumimos a tarefa de desenvolver um sistema educacional paralelo, com um diferencial: é focado em crianças de 6 a 18 anos, com níveis de acordo com a idade biológica e a complexidade técnica”, detalhou.
Murrieta explicou a filosofia por trás desta iniciativa: “Sua característica é descobrir talento e paixão. Acreditamos que tudo é muito focado em habilidades técnicas, e nós somos muito focados em habilidades comportamentais. Ao aprimorar essas habilidades comportamentais, as habilidades técnicas se desenvolvem.”
O executivo compartilhou resultados concretos: “Hoje temos cerca de 500 crianças e jovens enfrentando esses desafios. Seus projetos finais são focados em impacto social. Vários têm protótipos com potencial de registro. Falando de cidades inteligentes, vários jovens já têm projetos notáveis.”
No campo da eletromobilidade, a Machine Care estabeleceu uma colaboração estratégica. “Temos uma aliança com a Legacy EV, uma empresa americana em Phoenix, que tem soluções que vão desde a criação do conceito elétrico de um veículo até a conversão de combustão para elétrico. Nesse caminho, temos conseguido crescer na compreensão de como as habilidades comportamentais se conectam com as técnicas: que perfil devemos ter em nossa região, se é mais de implementação, design, análise ou gestão”, explicou.
E concluiu com uma reflexão sobre o momento atual: “A eletromobilidade chega com certo atraso em termos de especialização técnica. Cabe a nós aproximar essa tecnologia, introduzir projetos que incentivem a colaboração entre governo e iniciativa privada, e trabalhar com as empresas que são o motor desta região próspera.”

Uma grande decisão para transformar a mobilidade?
Elizabeth Garza aproveitou para aprofundar um problema estrutural. “Há municípios fazendo grandes esforços, como San Pedro, mas são esforços isolados. Temos que atualizar os estudos, não deixá-los na gaveta. Em 2019, lutamos muito para convencer os tomadores de decisão de que era necessário um Plano Integral de Mobilidade Urbana Sustentável. Nós o temos agora, mas precisamos atualizá-lo.”
A presidente do Colégio de Engenheiros Civis foi enfática sobre as prioridades: “Enquanto não dermos faixas exclusivas ao transporte público, enquanto não houver uma reestruturação de rotas e informações que gerem confiança, o usuário continuará desconfiando. O problema grave vem da desconexão entre o desenvolvimento urbano e a mobilidade. Continuamos construindo moradias isoladas, sem serviços, e depois temos casas vazias e tudo o que já conhecemos.”
E lembrou a pirâmide da mobilidade: “Tem que haver um momento em que alguém diga: ‘Já chega, quem ficar com raiva que fique, é isso que temos que fazer.’ Vamos apostar na pirâmide: infraestrutura para pedestres, espaços públicos, pessoas com deficiência, transporte público. E sim, também construir infraestrutura para o veículo particular, mas como uma necessidade, não como status.”
Garza concluiu com uma frase: “O usuário do transporte público é cativo. É mentira que alguém deixa o carro por vontade própria para pegar o ônibus. Precisamos pensar nessas pessoas. E também no transporte de carga, que sempre satanizamos. Se não dermos infraestrutura a ele, por onde vai circular?”
Por fim, Carolina Santos falou para encerrar o painel com uma reflexão pessoal. “Para mim, também é importante dividir o orçamento de forma justa entre todos os usuários do espaço público e da via. Não deixar ninguém de fora.”

A conversa continua: Turnê 2026 da Latam Mobility
O debate sobre cidades inteligentes, dados e mobilidade urbana continuará ao longo do ano nos principais mercados da região.
Será a oportunidade para continuar aprofundando as sinergias entre governo, indústria, academia e sociedade civil que tornam possíveis as transformações urbanas. Porque, como ficou demonstrado neste painel, as cidades inteligentes se constroem com diálogo, com dados e, acima de tudo, com a convicção de que outro modelo de mobilidade é possível.
Através de suas paradas em Monterrey e Cidade do México, Brasil, Colômbia e Chile, a plataforma continuará promovendo uma abordagem colaborativa para acelerar a transição para sistemas de transporte mais limpos, eficientes e inclusivos, posicionando a América Latina como um ator relevante na mobilidade sustentável em nível global.
Faça parte do movimento que acelera a transformação energética e urbana da América Latina. Se você quiser saber mais detalhes sobre como participar e opções de posicionamento, clique aqui.



