No âmbito do encontro “Latam Mobility Colômbia 2026”, realizado no Orquideorama do Jardim Botânico de Medellín, aconteceu o painel “Power to Move: O Posicionamento da Colômbia na Era Global da Transição Energética” – um espaço de diálogo que reuniu representantes de destaque da indústria energética, da mobilidade elétrica e dos biocombustíveis.
A conversa foi moderada por Jaime Arenas, diretor do Cluster de Energia Sustentável da Câmara de Comércio de Medellín, e contou com a participação de Carlos Mateus (presidente da Fedebiocombustíveis), Danny Fernando Ramírez (diretor geral do IPSE), David Ospina (CFO da Dielco), Humberto Iglesias Gómez (vice-presidente de Negócios da EPM) e Ricardo Mejía Gutiérrez (diretor executivo da Energy Valley).
Ao longo da sessão, os painelistas concordaram com um diagnóstico comum: a Colômbia tem vantagens competitivas únicas na região, mas enfrenta desafios estruturais que exigem um roteiro claro, articulação público-privada e uma mudança cultural profunda.
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Colômbia: Referência em Regulamentação e Matriz Energética
Um dos consensos iniciais do painel foi que o país tem um marco regulatório sólido, reconhecido até mundialmente. David Ospina, da Dielco, destacou: “A regulamentação na Colômbia é exemplo não só para a América Latina, mas pode ser comparada aos padrões europeus.” No entanto, ele alertou que o grande desafio atual não é a falta de regras, mas sim a capacidade de execução técnica e de infraestrutura.
Carlos Mateus, da Fedebiocombustíveis, lembrou que a Colômbia faz parte do “ABC” dos biocombustíveis na região, junto com Argentina e Brasil. Ele destacou que o setor vem reduzindo emissões há mais de 20 anos – quase 4 milhões de toneladas de gases de efeito estufa por ano e 900 toneladas de material particulado.
Ele também mencionou os avanços em combustíveis sustentáveis de aviação (SAF) e na incorporação de biodiesel no diesel marítimo, posicionando o país como líder na descarbonização do transporte.
Por sua vez, Ricardo Mejía, da Energy Valley, focou na matriz energética colombiana, classificada como a sexta mais limpa do mundo. “Um veículo elétrico na Colômbia é muito mais amigável ao meio ambiente do que o mesmo veículo em outras matrizes dependentes de combustíveis fósseis,” afirmou. Ele chamou a atenção para a necessidade de educar os usuários sobre toda a cadeia de emissões – e não só o escapamento.
Infraestrutura de Recarga e Zonas Não Interligadas: Desafios e Oportunidades
Humberto Iglesias, da EPM, abordou um dos temas mais críticos para a massificação do veículo elétrico: a confiança na infraestrutura de recarga. Ele revelou que em bairros como El Poblado e Laureles, os transformadores estão colapsando por causa da alta demanda simultânea de recarga.
Para resolver isso, a EPM vai investir 250 bilhões de pesos em uma nova subestação no bairro Colômbia, beneficiando as comunas 14, 15 e 11. “A adoção de veículos elétricos depende da confiança que a infraestrutura gera,” sublinhou.
Danny Fernando Ramírez, do IPSE, ampliou o olhar para as Zonas Não Interligadas (ZNI), que representam 52% do território nacional. Lá, a mobilidade depende muito de motocarros e motos movidos a combustíveis fósseis, cujo abastecimento é irregular e caro.
“Vemos uma grande oportunidade para impulsionar a mobilidade elétrica nessas regiões,” afirmou, citando pilotos bem-sucedidos em Isla Grande, Puerto Carreño e Guainía. Ele também destacou o potencial inexplorado da energia geotérmica como fonte confiável e que não depende do clima.

A Cultura Cidadã Como Pilar Esquecido
Uma das análises que mais chamaram a atenção no painel foi a de Ricardo Mejía, que trouxe o conceito de “selvageria da recarga”. Ele explicou que muitos usuários usam conectores não certificados ou bloqueiam estações de recarga por longos períodos, o que fez com que empresas respeitadas abandonassem o negócio de recarga pública.
“Já existem empresas que saíram do negócio porque a manutenção sai mais cara do que a operação – por falta de civismo,” alertou.
Mejía propôs uma campanha nacional de cultura de mobilidade sustentável, inspirada no sucesso do Metrô de Medellín, onde a comunidade adotou o sistema como seu. Ele também defendeu sistemas de gestão inteligente de recarga – com reservas por aplicativo e múltiplos conectores por ponto – para otimizar o uso da infraestrutura existente.
Rumo a um Roteiro Integrado
No encerramento do painel, os participantes concordaram sobre a necessidade urgente de um roteiro nacional que combine segurança energética, descarbonização e sinais claros para o investimento estrangeiro.
Carlos Mateus anunciou que a Fedebiocombustíveis encomendou um estudo a uma empresa internacional para identificar os gargalos do setor. “Precisamos de um roteiro que entenda a demanda, a oferta e as matérias-primas disponíveis, com mandatos de mistura progressivos e estabilidade regulatória,” explicou. Ele estimou que são necessários investimentos de cerca de US$ 2,6 bilhões em novas usinas, plantações e aproveitamento de biomassa.
David Ospina encerrou com um chamado para nos prepararmos para tecnologias emergentes como V2G (Vehicle to Grid) e armazenamento em larga escala, que vão transformar os consumidores em agentes ativos na energia.
Por fim, Humberto Iglesias fez um alerta oportuno: o fenômeno El Niño deve atingir 95% de probabilidade em julho, com 63% de chance de ser severo. “Os reservatórios estão abaixo do nível esperado. Fazemos um apelo à consciência no uso eficiente da energia em cada lar e local de trabalho,” concluiu.

Um 2026 de consolidação para a mobilidade
O Tour Latam Mobility 2026 chegará a Santiago, no Chile, no dia 25 de agosto, reunindo especialistas e atores estratégicos para continuar fortalecendo o ecossistema de mobilidade sustentável na região.
O evento terminará na Cidade do México nos dias 12 e 13 de outubro, juntamente com o Climate Economy Forum, em um encontro que reunirá líderes do setor para continuar impulsionando a transição para sistemas de transporte mais eficientes, sustentáveis e de baixas emissões na América Latina.
A transição já está em curso. O Tour 2026 do Latam Mobility será o ponto de encontro para acelerar decisões, conectar atores‑chave e construir, de forma colaborativa, a mobilidade sustentável da América Latina.



