Durante o primeiro dia do encontro “Latam Mobility & Net Zero Brasil 2026”, realizado em São Paulo, foi realizado o painel intitulado “Infraestrutura de recarga: hardware, software, engenharia e soluções integradas”, moderado por Daniela García, Country Lead da Invest In Latam.
A sessão reuniu atores-chave que abrangem desde a fabricação de equipamentos e engenharia especializada até software de gestão e operação de redes de recarga.
A moderadora abriu o debate destacando que, quando se discute eletromobilidade, a infraestrutura costuma ficar em segundo plano, mas é tão crucial quanto os próprios veículos.
“Infraestrutura envolve hardware, software, engenharia e soluções integradas para que tanto o beneficiário quanto os investidores tenham clareza em todo o processo”, afirmou Daniela García.
Leia também | Estudo da Geotab: baterias de carros elétricos mantêm mais de 90% de sua capacidade após 160.000 km
WEG: tecnologia nacional, fabricação local e pós-venda como diferencial
Fernanda Bencke, da WEG, destacou com orgulho que a multinacional brasileira, nascida em Santa Catarina, fabrica seus carregadores no Brasil com engenharia local e os exporta para a Europa e Estados Unidos.
“Desenvolvemos tecnologia com engenheiros brasileiros para a nossa realidade de infraestrutura”, afirmou. A WEG não só fornece carregadores, mas também quadros elétricos, transformadores e proteções elétricas, oferecendo uma solução integrada que evita a “colcha de retalhos” de múltiplos fabricantes.
Fernanda Bencke colocou o foco no serviço pós-venda como um fator crítico para a escalabilidade. Segundo dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (BVE), o Brasil conta com 21.000 eletropostos públicos e semipúblicos, mas o principal problema não é a falta de equipamentos, e sim que muitos deles não funcionam quando o usuário precisa.
“Um carregador parado impacta a disponibilidade, o investidor deixa de faturar e o cálculo de retorno do investimento não fecha”, explicou. Para enfrentar isso, a WEG desenvolveu o sistema V-Mob Advanced Services, que monitora preventivamente os módulos de potência para antecipar falhas e reduzir o tempo de inatividade.

EzVolt: verticalização, redes próprias e interoperabilidade
Gustavo Tannure, da EzVolt, descreveu sua empresa como uma rede de recarga verticalizada que nasceu em 2019. A EzVolt opera sua própria rede de eletropostos (B2B e B2C), oferece soluções de gestão para proprietários de pontos de recarga e é fornecedora de aplicativos para montadoras como Chevrolet, Volvo, Audi e BMW.
Gustavo Tannure revelou que cerca de 70% dos ônibus elétricos de São Paulo utilizam suas soluções de recarga, com presença em mais de 20 garagens da cidade. A empresa já superou os 50 milhões de reais de faturamento e tem mais de 240.000 downloads de seu aplicativo.
Em matéria de interoperabilidade, Gustavo Tannure fez uma analogia com a telefonia móvel: assim como existe o roaming entre operadoras, a eletromobilidade precisa que as plataformas de gestão se comuniquem por meio de uma linguagem comum.
Ele explicou que o padrão OCPI (Open Charge Point Interface) permite que um carregador de uma empresa apareça no aplicativo de outra, facilitando a vida do usuário. “O objetivo é que o cliente encontre o eletroposto com facilidade, com menos aplicativos, e no futuro o próprio veículo se autentique e pague de forma automática”, projetou.
REVO Electric Revolution: engenharia para padronização e novos mercados
Luiz Santos, da REVO Electric Revolution (grupo Austin) , explicou que sua empresa atua na camada de engenharia, idealizando e executando projetos, sem fornecer hardware ou software, mas complementando o ecossistema com padronização e confiabilidade.
Ele alertou que, assim como aconteceu com a energia solar, onde apenas 20% das empresas que entraram em 2016 continuam ativas, o setor de eletromobilidade exige padrões técnicos sólidos para evitar uma alta mortalidade de projetos.
Luiz Santos também abriu o olhar para o futuro: mencionou os eVTOLs (veículos elétricos de decolagem e pouso vertical) , impulsionados pela Embraer, que exigirão infraestrutura de recarga em lugares incomuns, como lajes de edifícios.
“O fomento da eletrificação abre espaço para outros mercados. É a ponta do iceberg de muitas coisas que virão“, afirmou. Ele adiantou que os próximos passos estarão ligados ao armazenamento de baterias e a soluções off-grid que combinem geração, conversão e acumulação de energia.
Re.Charge Brasil: engenharia especializada para grandes projetos
Arthur Carrão, da Re.Charge Brasil, apresentou sua empresa como uma firma de engenharia especializada em eletromobilidade, que atua em projetos, implantação, consultoria e manutenção de carregadores.
“Só fazemos obras de eletromobilidade e trabalhamos em grandes hubs de recarga, garagens de ônibus, aeroportos, terminais e galpões logísticos que estão eletrificando suas frotas”, explicou. A empresa foca no mercado B2B com projetos de alta complexidade.
Arthur Carrão destacou que o último dia de obra é o primeiro dia de operação; portanto, a combinação de engenharia, interoperabilidade real e um ecossistema que funcione de forma integrada desde o início do projeto é fundamental para reduzir riscos e garantir a viabilidade do investimento.

Spott: dados, localização e capital para escalar redes de recarga
Thiago Moreno, da Spott, explicou que sua empresa nasceu em 2021 com a missão de escalar a infraestrutura de forma agnóstica e asset-light, fornecendo uma plataforma digital para o ecossistema.
“Um carregador sem software, sem boa operação, sem demanda e sem capital não é suficiente”, destacou. A Spott atende os principais operadores de eletropostos do Brasil e frotas de última milha, como o caso do Mercado Livre, gerenciando a recarga de quase 2.000 veículos elétricos.
Thiago Moreno destacou dois pontos críticos: a complexidade operativa (o tempo de inatividade mata o negócio) e a escolha do lugar (localização é mais importante que o hardware) . “Errar o local é muito mais caro. Pode-se começar com um carregador de corrente alternada, testar a demanda e depois investir em maior potência”, aconselhou.
Além disso, a Spott faz parte do ecossistema da Pátria, o maior fundo de infraestrutura da América Latina, o que lhes permite ajudar seus clientes a captar capital para saltar de 100 para 2.000 carregadores. “O ativo de infraestrutura tem que ser rentável. É preciso crescer com qualidade, não só com volume“, sentenciou.
O crescimento impulsionado pela demanda privada
Durante o debate, os painelistas concordaram que o Brasil não conta com incentivos públicos diretos para a instalação de eletropostos; todo o crescimento foi impulsionado pelo investimento privado.
Gustavo Tannure explicou que o desenvolvimento da rede seguiu a demanda de veículos, resolvendo o dilema do “ovo ou galinha”. Os carregadores existem porque há carros elétricos, e cada vez mais motoristas de aplicativos e empresas de frotas optam pela eletromobilidade ao verificar o custo total de propriedade (TCO) .
“Um motorista que roda mais de 200 quilômetros por dia recupera a diferença de preço do veículo elétrico em aproximadamente um ano e meio”, exemplificou. As revisões mais baratas e o menor custo por quilômetro rodado fazem com que, mesmo sem subsídios, a equação financeira se feche para os usuários intensivos.
Em suas conclusões, os painelistas enviaram uma mensagem clara: o momento de investir em infraestrutura de recarga é agora, mas é preciso fazê-lo de forma inteligente:
- Fernanda Bencke instou os empresários a começarem o quanto antes, porque quem já está no mercado aprendeu, errou e ajustou seus modelos. Ela deu como exemplo o cliente Esquina do Futuro, que constrói pontos de recarga pensando na experiência completa (cafeteria, banheiros, Wi-Fi) e priorizando a disponibilidade do equipamento.
- Thiago Moreno concordou que entrar mal também é caro, por isso recomenda se assessorar com dados e aliados estratégicos.
- Arthur Carrão lembrou que o mercado de recarga para veículos pesados (frotas de ônibus e caminhões) representa apenas 1,5% do potencial, enquanto nos Estados Unidos já existem 250.000 eletropostos e na China 4 milhões. “Há muito espaço para crescer, mas é preciso crescer com alianças estratégicas, com seriedade e com visão de longo prazo”, concluiu.
- Luiz Santos acrescentou que o armazenamento de energia e os sistemas off-grid serão protagonistas nos próximos anos, especialmente para eletropostos de alta potência (480 kW) que exigem bancos de baterias para não colapsar a rede.
- Gustavo Tannure, em sua intervenção final, comparou a eletromobilidade com a evolução das televisões: dos tubos às telas de plasma e depois LED. “Estamos na primeira etapa de uma tecnologia de ruptura. As baterias de estado sólido darão autonomias de 1.500 km e mudarão as regras do jogo“, vaticinou.
A moderadora Daniela García encerrou o painel agradecendo aos participantes e destacando que a mobilidade sustentável deve ser ambiental e financeiramente sustentável, e que o caminho para os 100.000, 200.000 ou 300.000 pontos de infraestrutura no Brasil será construído com colaboração, inovação e confiabilidade.

A agenda para descarbonizar o transporte
A Latam Mobility promove o diálogo dos principais líderes do setor ao longo de sua turnê 2026, que percorrerá os principais mercados da região para aprofundar esses e outros temas cruciais para a transformação da mobilidade.
Através de suas paradas em Monterrey e Cidade do México, Brasil, Colômbia e Chile, a plataforma continuará promovendo uma abordagem colaborativa para acelerar a transição para sistemas de transporte mais limpos, eficientes e inclusivos, posicionando a América Latina como um líder relevante na mobilidade sustentável em nível global.
Faça parte do movimento que acelera a transformação energética e urbana da América Latina. Se você quiser saber mais detalhes sobre como participar e opções de posicionamento, clique aqui.



