Brasil traça o roteiro para a mobilidade sustentável na LATAM: interoperabilidade e reindustrialização ditam o ritmo

Brasil

No âmbito do webinar “LATAM: roteiro 2026 para mobilidade e energia”, organizado pela Latam Mobility, foi realizado um painel de alto nível que reuniu importantes referências do setor para analisar o presente e o futuro da eletromobilidade no Brasil e seu impacto na região.

A moderação ficou por conta de Daniela Garcia, Country Lead Brasil da Invest In Latam, que conduziu uma conversa abordando desde a inovação tecnológica até os desafios regulatórios e de industrialização.

O espaço contou com a participação de Rodrigo Vicentini (Managing Director Brazil da CharIN) , Ana Luiza Berti (Head Comercial Brasil e Latam da VoltBras) e André Jannini (vice-presidente do IBMS e representante da FIESP) .

Os especialistas concordaram que o Brasil se posiciona como o protagonista indiscutível da transição energética na América Latina, embora enfrente desafios estruturais que precisará resolver para consolidar sua liderança global.

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Mercado em ebulição

A abertura do diálogo foi marcada pela necessidade de entender o papel do Brasil dentro do ecossistema de mobilidade sustentável. Daniela Garcia destacou que o mercado brasileiro é um dos maiores do mundo, mas ressaltou que a mobilidade sustentável vai além dos veículos, abrangendo um conjunto integrado de tecnologia, energia e infraestrutura.

Ana Luiza Berti apresentou sua visão desde a VoltBras, empresa focada em software para redes de recarga com presença em 10 países da região. “O Brasil se tornou uma referência para a América Latina. O que desenvolvemos aqui levamos para outros países, especialmente em tecnologias de interoperabilidade, pagamentos avançados e conciliação financeira para redes de recarga complexas” , afirmou.

Berti destacou que a rápida massificação de frotas de aplicativos e a forte adoção de energia solar criaram uma pressão sem precedentes sobre a infraestrutura, gerando tanto oportunidades quanto a necessidade de maior segurança jurídica.

Por sua vez, Rodrigo Vicentini enfatizou a importância da interoperabilidade como pilar fundamental. Da CharIN, associação global que promove padrões como o ISO 15118, explicou que o futuro da mobilidade depende da padronização.

“Não podemos repetir a experiência dos anos 90 com os celulares, onde cada operador funcionava de maneira isolada. Precisamos que o motorista possa recarregar seu veículo em qualquer ponto, independentemente do fornecedor, com uma experiência fluida e transparente” , destacou Vicentini, que também salientou a vantagem competitiva do Brasil em energias renováveis e a necessidade urgente de avançar na neoindustrialização.

Participantes do webinar da Latam Mobility sobre roteiro de mobilidade sustentável no Brasil 2026
Daniela Garcia e André Jannini (acima) e Rodrigo Vicentini e Ana Luiza Berti (abaixo)
Daniela Garcia e André Jannini (acima) e Rodrigo Vicentini e Ana Luiza Berti (abaixo)

A fórmula para a escalabilidade

O painel aprofundou-se nos contrastes paradoxais do mercado brasileiro: um país com uma matriz energética invejável e um ecossistema de startups vibrante, mas com uma carga tributária e burocracia que freiam o desenvolvimento industrial.

André Jannini trouxe a perspectiva da indústria e do empreendedorismo. Como vice-presidente do IBMS e agora focado na FIESP, anunciou a criação de um novo núcleo de mobilidade sustentável na federação industrial.

“O Brasil tem o potencial para ser um referencial global em mobilidade híbrida, combinando biocombustíveis com eletrificação. Mas precisamos nos reindustrializar e isso passa por corrigir distorções tributárias e, sobretudo, por distribuir os recursos de incentivo de maneira mais justa” , declarou Jannini.

O empresário fez uma crítica contundente: as grandes multinacionais acessam com facilidade os fundos de desenvolvimento, enquanto as startups inovadoras, que criam soluções nacionais, ficam para trás.

“Somos uma startup que está desenvolvendo o primeiro veículo híbrido de biometano-elétrico projetado no Brasil, mas competir por recursos contra gigantes que não precisam desse dinheiro é uma luta desigual”, exemplificou.

Jannini insistiu que a chave para a decolagem da indústria nacional reside na redução da carga fiscal e na criação de um ambiente de certezas regulatórias.

Interoperabilidade e visão de futuro

À medida que o debate avançou para as perspectivas para 2026 e 2027, os participantes concordaram que o desafio tecnológico já está resolvido, mas o verdadeiro desafio é comercial, regulatório e colaborativo.

Ana Luiza Berti apontou que outros países da região (Colômbia, México, Argentina) estão começando a viver o mesmo fenômeno de adoção em massa que o Brasil experimentou há dois anos.

“A oportunidade é enorme, mas devemos atuar como um setor unificado. O usuário final não pode ser quem sofre pela falta de acordos entre os atores. Precisamos de colaboração para que a interoperabilidade não seja apenas um conceito técnico, mas uma realidade comercial” , afirmou.

Nessa linha, Rodrigo Vicentini delineou o roteiro técnico para os próximos anos, mencionando a iminente publicação dos marcos regulatórios do INMETRO, as discussões sobre carregamento bidirecional (V2G) na ANEEL e a chegada de novas tecnologias como o Plug&Charge.

“Esperamos avanços significativos na metrologia legal e na padronização do carregamento bidirecional, que é extremamente importante para a estabilidade do sistema elétrico. O Brasil tem a oportunidade de não apenas importar tecnologia, mas de criar seus próprios polos de desenvolvimento de componentes para o mercado global” , concluiu.

Conclusões: a sinfonia do ecossistema

Para encerrar, os especialistas deixaram mensagens claras sobre o que é necessário para consolidar a liderança brasileira:

  • André Jannini resumiu que o Brasil tem a matriz limpa, a escala de mercado e a integração única com biocombustíveis. O elo que falta é “o cimento que une tudo: interoperabilidade governada, certificada e remunerada de forma inteligente, junto com uma redução da carga tributária” .
  • Ana Luiza Berti instou à união do setor para resolver os desafios comerciais e regulatórios que ainda persistem, destacando que a oportunidade existe, mas a falta de coordenação pode atrasar o avanço.
  • Rodrigo Vicentini projetou um futuro onde o roaming entre operadores de recarga seja transparente para o usuário, similar à evolução da telefonia celular, e onde o Brasil participe ativamente da cadeia produtiva internacional, fabricando componentes e não apenas montando produtos importados.

Daniela Garcia encerrou o painel agradecendo aos participantes e lembrando que o verdadeiro valor desses espaços é a construção conjunta do ecossistema. “Quem vê a eletromobilidade apenas como um veículo não entende a revolução energética e geopolítica que estamos vivendo. O Brasil tem forças únicas, e a sinergia com a América Latina será chave para escalar soluções” , concluiu.

O webinar foi o prelúdio do próximo encontro presencial «Latam Mobility & Net Zero Brasil» , que será realizado nos dias 15 e 16 de abril em São Paulo, onde esses debates sobre o futuro da mobilidade sustentável na região continuarão sendo aprofundados.

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