Durante a primeira jornada do “Latam Mobility & Net Zero Brasil 2026”, foi realizado o painel intitulado “Frotas comerciais e soluções logísticas: veículos, software, telemática e inteligência artificial”, moderado por Paulo Miguel Jr, vice-presidente da Associação Brasileira de Locadoras de Automóveis (ABLA).
O espaço reuniu atores-chave da cadeia de valor da mobilidade elétrica aplicada a frotas, desde fabricantes de veículos e locadoras até consultores tecnológicos e grandes operadores logísticos.
O moderador abriu o debate destacando que, embora o veículo elétrico seja frequentemente visto como mais caro, no mundo das frotas comerciais a análise não pode se limitar ao preço de compra; deve abranger todos os custos operacionais, o tempo de utilização e os benefícios ambientais e sociais.
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EVMOB: soluções integrais de eletrificação ponta a ponta
Amanda Vieira Souza, da EVMOB, apresentou sua empresa como uma locadora de veículos 100% elétricos fundada pela Pátria, o maior fundo de investimento da América Latina, com mais de 270 bilhões de reais sob gestão.
“Somos mais que uma locadora: oferecemos uma solução de eletrificação ponta a ponta“, explicou. O processo começa com uma análise profunda da frota operacional do cliente, avaliando tempos, movimentos e viabilidade econômica. “Não acreditamos em projetos de eletrificação em escala sem viabilidade econômica”, enfatizou.
A EVMOB não só seleciona o veículo adequado e projeta a logística, como também gerencia a infraestrutura de recarga e oferece treinamento a condutores e análise de dados pós-implantação.
Amanda Vieira Souza destacou que a disponibilidade do veículo é chave na logística: os elétricos têm manutenções mais rápidas e passam menos tempo parados, o que impacta positivamente no TCO.
Evolutionary Business: consultoria para a transição
Daniel Goretti, da Evolutionary Business, relatou sua trajetória de 15 anos na indústria automotiva e sua passagem por projetos de eletrificação na Amazon e Wemo nos Estados Unidos. Sua empresa atua em capacitação de pessoal (desde operários até líderes), consultoria para eletrificação de frotas e desenvolvimento tecnológico junto a montadoras em veículos leves, pesados e off-road.
Daniel Goretti sublinhou que a eletrificação não é só comprar caminhões: exige diagnóstico, estudo de rotas, topografia e eficiência. “Pequenas decisões de projeto (pneus, freios, transmissão) podem afetar a autonomia em 15% ou 20%”, alertou.
Ele propôs um processo de três passos: diagnóstico, projeto-piloto e escalonamento, e destacou a importância de alianças com empresas que tenham a experiência para acompanhar esse caminho.

JBS: cinco anos de experiência e lições aprendidas
Felipe Bullo, da JBS, compartilhou a experiência concreta da transportadora do grupo. A JBS conta com 1.600 caminhões pesados e extrapesados e, por meio de seu braço No Carbon, opera 281 caminhões elétricos de delivery desde 2020. “A primeira boa notícia é que é possível viabilizar; senão, não estaríamos com 281 unidades após cinco anos”, afirmou.
O segredo, segundo Felipe Bullo, é estudo e alianças. “Não se pode comprar um veículo elétrico num dia e colocá-lo para operar no seguinte.” A JBS começou com 30 unidades em 2020, com telemetria desde o primeiro dia, medindo dados reais durante três meses antes de escalar para 100 e depois para 280. A telemetria foi uma pré-condição.
Felipe Bullo destacou que os caminhões elétricos não dão problema; têm muito menos peças que os de combustão e, em cinco anos, a bateria manteve 90% de vida útil frente aos 85% garantidos. “Eles só funcionam”, resumiu.
Além disso, a empresa enfrentou o desafio de dispersar a frota por diferentes regiões do Brasil (Pará, Nordeste), o que obrigou a desenvolver uma rede de manutenção com parceiros locais. Felipe Bullo concluiu que a relação com o fornecedor chinês é ágil (respostas em poucas horas) e que o TCO é favorecido pela menor necessidade de reparos e pela previsibilidade do custo energético frente à volatilidade do diesel.
Arrow Mobility: van autônoma com IA
Julio Cesar Balbinot Jr, da Arrow Mobility, apresentou os veículos que a empresa tinha em exposição: a Arrow One, uma van de delivery estilo americano, e a Arrow 2, um modelo de menor custo para democratizar o acesso ao veículo elétrico. Ele explicou que, ao eliminar o motor dianteiro, é possível aumentar o volume de carga em 60% no mesmo comprimento, aproveitando o design específico para aplicações logísticas.
Julio Cesar Balbinot Jr revelou um projeto inovador aprovado pela FINEP (agência governamental brasileira): o desenvolvimento de uma van autônoma com inteligência artificial embarcada.
Ele esclareceu que não se trata de um veículo que circule autonomamente em via pública, mas de automatizar os processos internos do centro logístico: o veículo se desloca sozinho dentro do depósito, carrega pacotes com sistema RFID que conta e verifica cada um, e o motorista recebe o veículo pronto, evitando as longas filas matinais que podem durar até duas horas.
“O motorista não precisa acessar o centro logístico, o que economiza tempo e desgaste”, explicou. Além disso, as câmeras do sistema podem identificar comportamentos suspeitos ao redor do veículo estacionado e alertar uma central de segurança.

Instituto PARAR: o desafio da capacitação técnica
Fernando Cesar, representando o Instituto PARAR e também como CEO da Unique (empresa de integração tecnológica para mobilidade urbana), fez uma provocação inicial: “Eletrificação não é sinônimo de descarbonização; é um dos aliados, mas não o único.”
Ele colocou o foco no custo por quilômetro e na preparação da equipe técnica. “A escola dos mecânicos foi na combustão; muitos estão assustados com a nova tecnologia. E a nova geração não mostra a mesma atração por esta indústria.”
Fernando Cesar destacou que as frotas bem-sucedidas usam a telemática como ferramenta de gestão para monitorar o veículo à distância, orientar o motorista sobre aceleração, frenagem e curvas, e assim prolongar a vida útil dos componentes.
Ele deu exemplos concretos de design: um fabricante que posiciona o sistema de gerenciamento eletrônico na parte traseira do ônibus, acessível, frente a outro que o coloca no teto, o que exige trabalho em altura e normas especiais (NR10, NR35). “Isso também impacta no TCO”, alertou.
A vantagem da telemetria no TCO
O moderador Paulo Miguel Jr acrescentou um ponto muitas vezes esquecido: o conforto do motorista. Os veículos elétricos não vibram, não têm barulho de motor e permitem usar ar-condicionado sem grande impacto no consumo, o que reduz a fadiga e melhora a produtividade.
Amanda Vieira Souza complementou: “Os motoristas começam a brigar para dirigir a frota elétrica da companhia. A diferença na jornada deles é enorme.”
Daniel Goretti insistiu que escolher a rota correta é tão importante quanto escolher o veículo. A telemetria permite modelar a eficiência conforme geolocalização, inclinação e tipo de carga.
E Felipe Bullo encerrou com um conselho prático: “O primeiro passo é não se aventurar. Se você entrar sem estrutura, sem analisar carga, demanda de energia, sem telemetria, pode concluir erroneamente que não vale a pena.”
O painel deixou várias conclusões claras:
- A eletromobilidade para frotas é economicamente viável quando se analisa o TCO (custo total de propriedade) e não apenas o preço de aquisição.
- A telemetria e a análise de dados são imprescindíveis antes, durante e depois da eletrificação.
- As alianças estratégicas entre fabricantes, locadoras, operadores logísticos e centros de serviço são chave para superar desafios de manutenção e escalonamento.
- A capacitação técnica e a integração de sistemas (hardware, software, inteligência artificial) farão a diferença entre o sucesso e o fracasso.
Paulo Miguel Jr agradeceu aos painelistas e destacou que o mercado de infraestrutura para mobilidade sustentável no Brasil está avaliado em mais de 1 bilhão de reais, com um potencial de crescimento enorme. “O veículo elétrico já não é o futuro; é o presente, especialmente em frotas comerciais e de última milha.”

A agenda para descarbonizar o transporte
A Latam Mobility promove o diálogo dos principais líderes do setor ao longo de sua turnê 2026, que percorrerá os principais mercados da região para aprofundar esses e outros temas cruciais para a transformação da mobilidade.
Através de suas paradas em Monterrey e Cidade do México, Brasil, Colômbia e Chile, a plataforma continuará promovendo uma abordagem colaborativa para acelerar a transição para sistemas de transporte mais limpos, eficientes e inclusivos, posicionando a América Latina como um líder relevante na mobilidade sustentável em nível global.
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