ABNT, ABVE, BorgWarner, Energy Source e IQA concordam: infraestrutura da qualidade é chave para a segurança das baterias na mobilidade elétrica

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Durante o Latam Mobility & Net Zero Brasil 2026, foi realizado o painel “Segurança e economia circular: Baterias, padronização e certificações” — um espaço de diálogo técnico e estratégico que reuniu especialistas para analisar a segurança, a gestão de baterias, os padrões técnicos e os modelos de economia circular que promovem a reutilização, a reciclagem e a certificação confiável ao longo da cadeia da mobilidade sustentável.

O debate foi moderado por Clemente Gauer, diretor e membro do Conselho da ABVE, e contou com Alexandre Xavier (superintendente do Instituto da Qualidade Automotiva – IQA), David Noronha (fundador e CEO da Energy Source), José Luiz Albertin (chefe da Secretaria do CB 005 da ABNT) e Marcelo Ramos Rezende (diretor geral para Sistemas de Baterias da BorgWarner).

Durante o painel, os talks foram desde a recuperação de baterias de lítio e a tecnologia de reciclagem 100% brasileira até a importância das normas técnicas para a segurança, o reparo de baterias dentro e fora da garantia, a certificação de sistemas, e os desafios da micromobilidade e da capacitação de profissionais.

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Inovação em reciclagem e reparo de baterias

David Noronha abriu o painel apresentando a trajetória da Energy Source, empresa que fundou há quase dez anos e que se tornou referência em baterias de lítio na América Latina. Noronha destacou vários marcos: em 2017, foram a primeira empresa da região a oferecer um produto de segundo uso de baterias; em 2020, patentearam tecnologia própria de reciclagem; e em 2021, tornaram-se a primeira empresa da América Latina a reciclar baterias como alternativa ao aterro sanitário e à pirometalurgia.

“Hoje recuperamos entre 97% e 99% de todo o material da bateria, sem enviar nada ao aterro. É uma tecnologia brasileira própria” , afirmou Noronha.

Em 2022, começaram a reparar baterias a pedido das montadoras, tornando-se a primeira empresa do mundo a fazer reparos fora da Renault, inclusive em baterias com garantia. Atualmente, gerenciam a logística reversa e o reparo para várias marcas, incluindo Volvo, BMW, Renault e Audi.

Noronha esclareceu um mito comum: a bateria de lítio não contém metais pesados nem terras raras. Ele explicou que o único contaminante potencial é o eletrólito, se não for tratado corretamente, mas que no processo deles tudo é reaproveitável.

Ele destacou que conseguiram extrair cobalto da massa negra (black mass) e transformá-lo em fertilizante para a agricultura ou alimentação bovina, transformando resíduo em fonte de mineração secundária. “A bateria de lítio não é um problema — é a solução para a transição energética” , sentenciou.

BorgWarner: mais de 50 anos no Brasil

Marcelo Ramos Rezende explicou que a BorgWarner é uma multinacional com mais de 130 anos de história e 50 anos de operação no Brasil. A empresa produz sistemas de baterias em sua fábrica de Piracicaba para veículos comerciais, especialmente os ônibus elétricos que rodam em São Paulo.

Ele também explicou que a empresa recebe a bateria pré‑montada da Alemanha, completa a montagem, integra o BMS (sistema de gerenciamento da bateria) e realiza todos os testes.

Rezende enfatizou que as baterias são projetadas pensando em todo o ciclo de vida: segurança, qualidade, durabilidade, desempenho, e também reparo, segunda vida e reciclagem. As baterias da BorgWarner são certificadas pela norma IEC 62619 (europeia), que inclui testes de choque térmico, curto‑circuito, impacto, penetração e vibração. “Nossas baterias estão durando muito mais do que o projetado inicialmente” , observou.

Ele também anunciou que estão desenvolvendo o passaporte da bateria (obrigatório na Europa a partir de 2026), que, por meio de um QR code, permite saber desde os minerais de origem, a pegada de carbono, o estado de saúde (SOH) e todo o histórico da bateria.

Rezende destacou que, no Brasil, já estão fazendo testes de reciclagem com a Energy Source para fechar o ciclo da economia circular.

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ABNT CB 005: normas técnicas para a eletrificação

José Luiz Albertin apresentou o trabalho do Comitê Brasileiro de Automóveis (CB 005) da ABNT, criado há mais de 50 anos, e observou que a preocupação com a eletrificação começou em 2013, com a publicação das duas primeiras normas brasileiras: uma de vocabulário para veículos elétricos e outra de consumo energético para homologação.

Atualmente, grupos de trabalho abordam temas como montagem e desmontagem de baterias, armazenamento, transporte, segunda vida e reparo.

Albertin informou que, no final de 2025, publicaram uma prática recomendada para bicicletas elétricas de pedal assistido (tipo e‑bike) , que servirá de base para a regulamentação da micromobilidade (hoverboards, patinetes etc.).

Ele também mencionou que o passaporte de baterias europeu se apoia em mais de 170 normas (IEC, ISO), e que a ABNT está trabalhando para adotar padrões equivalentes no Brasil. “A norma técnica sistematiza o conhecimento e permite seu uso em regulamentação, contratos e como piso seguro para empresários e pesquisadores” , concluiu.

IQA: capacitação, certificação e foco na micromobilidade

Alexandre Xavier explicou que o Instituto da Qualidade Automotiva (IQA) foi criado há 31 anos pelo governo federal e pelo setor automotivo para apoiar o controle de qualidade em toda a cadeia (indústria, comércio e serviços). Atualmente, atua como organismo certificador e laboratório para baterias reguladas, com sede no Parque Tecnológico de Sorocaba.

Xavier destacou a participação do IQA no grupo de trabalho do INMETRO sobre mobilidade elétrica, cujo foco principal é a regulamentação de baterias para micromobilidade devido ao alto volume de vendas e aos riscos associados, especialmente por meio de canais eletrônicos.

Ele mencionou o caso de Nova York, onde a implementação de certificações UL para baterias de e‑bikes reduziu de 240 mortes por incêndios para zero em um ano.

Sobre a capacitação de profissionais, Xavier observou que, segundo o Fórum Econômico Mundial, 63% dos empresários (59% no Brasil) consideram a requalificação da mão de obra o maior desafio.

No setor automotivo, somam‑se a disponibilidade e a atratividade do setor. Ele explicou que concessionárias e oficinas independentes manifestaram medo de manusear veículos elétricos por falta de regras claras, e até associações de guinchos pediram orientação. “Antes de uma educação técnica específica, precisamos sensibilizar e eliminar fantasmas” , afirmou.

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Segurança, saúde pública e a importância da regulamentação

O moderador Clemente Gauer fez uma enquete ao vivo com o público. Perguntou se as baterias de lítio contêm terras raras (o público ficou dividido) e se contêm metais pesados (a maioria respondeu que sim).

David Noronha respondeu de forma categórica: “A bateria de lítio não tem metais pesados. A bateria de lítio não tem terras raras.” Ele esclareceu que as baterias de níquel‑metal hidreto (usadas pela Toyota em híbridos antigos) contêm terras raras, mas as de lítio não.

Sobre poluição, Noronha foi enfático: o único risco é o eletrólito se não for tratado corretamente, mas todo o material é 100% reaproveitável. Ele lembrou os graves casos de contaminação por baterias de chumbo‑ácido em Bauru e Santo Amaro (Bahia), que afetaram neurologicamente centenas de crianças, e ressaltou que as baterias de lítio não geram esse tipo de passivo ambiental se forem gerenciadas adequadamente.

Nas mensagens finais, Marcelo Rezende insistiu na importância das certificações para garantir que as baterias em circulação sejam seguras e confiáveis, e se comprometeu a trabalhar com os órgãos reguladores. José Luiz Albertin convidou os interessados a participar das comissões de estudo da ABNT, onde o conhecimento é construído entre pares.

Por fim, Alexandre Xavier concluiu que a bateria deve ser tratada como um sistema crítico, com o mesmo nível de atenção que outros produtos de risco, e que a infraestrutura da qualidade (regulamentação, normas, certificação, vigilância de mercado) é o caminho para gerar confiança, segurança e repetibilidade em escala.

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Da esquerda para a direita Alexandre Xavier, José Luiz Albertin, Marcelo Ramos Rezende, David Noronha e Clemente Gauer

Um 2026 de consolidação para a mobilidade

O Tour Latam Mobility 2026 continua sua jornada. O próximo encontro será em Medellín, Colômbia, nos dias 10 e 11 de junho, e depois chegará a Santiago, Chile, em 25 de agosto, reunindo especialistas e atores estratégicos para fortalecer ainda mais o ecossistema de mobilidade sustentável na região.

O tour terminará na Cidade do México nos dias 12 e 13 de outubro, junto com o Climate Economy Forum, num evento que reunirá grandes referências do setor para continuar impulsionando a transição para sistemas de transporte mais eficientes, sustentáveis e de baixas emissões na América Latina.

A transição já está em curso. O Tour 2026 da Latam Mobility será o ponto de encontro para acelerar decisões, conectar os atores‑chave e construir, de forma colaborativa, a mobilidade sustentável da América Latina.