IE Grupo e Toyota definem as jogadas mestras para a mobilidade sustentável na Colômbia

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Em um encontro virtual organizado pela Latam Mobility, líderes dos setores automotivo e de infraestrutura elétrica chegaram a um diagnóstico fundamental: a Colômbia tem todas as tecnologias necessárias para acelerar a eletromobilidade, mas enfrenta barreiras críticas em financiamento, geração de energia e confiança do usuário.

O webinar intitulado “Latam Mobility Colômbia 2026: a partida decisiva da mobilidade sustentável”, moderado por Andrés García (diretor da Latam Mobility), contou com a participação de Martín García (representante da Toyota Colômbia) e Deibit Lozano, fundador e CEO da IE Grupo (Internacional Eléctrico).

Ambos os especialistas usaram uma analogia com o futebol para descrever o momento do ecossistema e traçaram as jogadas necessárias para o país vencer a partida da mobilidade de baixa e zero emissão.

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Uma escalação de nível mundial: o Multipathway da Toyota e a aposta tecnológica da CIEN by IE

Martín García abriu a conversa apresentando a estratégia global da Toyota, que vai além da fabricação de veículos para se posicionar como uma empresa de mobilidade integrada. Com mais de uma década de presença na Colômbia, a Automotores Toyota Colômbia adotou o conceito Multipathway, que consiste em oferecer seis tecnologias-base adaptadas à infraestrutura, à regulação e aos recursos de cada país.

Para o caso colombiano, a empresa montou um “dream team” em campo: uma defesa sólida com veículos de combustão interna de eficiência aprimorada e padrões Euro 5 e Euro 6; um meio-campo liderado pelos híbridos Corolla, Corolla Cross e o renovado Yaris Hatchback; e um ataque encabeçado pelo Toyota bZ4X – o primeiro 100% elétrico da marca na Colômbia – que combina mais de 480 km de autonomia (ciclo WLTP), 338 cavalos de potência combinada e o lendário DNA off-road da empresa.

García destacou que hoje 54% do portfólio da Toyota na Colômbia é eletrificado e anunciou que mais novidades virão no segundo semestre, incluindo desenvolvimentos regionais como o veículo híbrido flex a etanol (do Brasil) e tecnologias a metano para o agro, aproveitando matéria orgânica e captura de carbono.

Além disso, a marca fortaleceu seus serviços de mobilidade compartilhada com o Kinto Share (aluguel por hora, dia ou semana) e o próximo lançamento do Kinto WAN, um serviço de renting para empresas que permite o acesso a frotas eletrificadas sem investimento inicial.

Por sua vez, Deibit Lozano apresentou a proposta da IE Grupo, empresa colombiana com 30 anos de experiência em infraestrutura elétrica, geração, transmissão e distribuição de energia. Por meio de sua unidade de negócios CIEN, a empresa se consolidou como operador de recarga (CPO) e provedor de serviços de mobilidade (MSP), com forte desenvolvimento tecnológico próprio.

Lozano explicou que a CIEN by IE já gerencia cerca de 40% das transações de pedágio na Colômbia, o que lhe deu conhecimento profundo dos corredores viários e dos padrões de mobilidade do país.

“Nossa escalação está definida: o jogador número 10 é o usuário, e ao redor dele orbitam o CPO e o MSP. Queremos revolucionar a experiência do usuário porque hoje a desconfiança é ainda maior do que a falta de infraestrutura.”

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Os gargalos que seguram a partida

Um dos momentos mais reveladores do webinar foi a análise conjunta das barreiras estruturais que impedem a massificação da eletromobilidade na Colômbia.

Martín García trouxe um dado impressionante: para atingir a meta de 600 mil veículos elétricos até 2030, o país precisará de aproximadamente 3,6 gigawatts de capacidade adicional – número que supera até a geração da hidrelétrica de Hidroituango. “Não precisamos só de infraestrutura de recarga, mas sim de geração de energia. Os esforços têm que ser conjuntos: governo, iniciativa privada, comercializadores e usuários.”

Diante disso, a Toyota reforça sua estratégia híbrida como solução imediata que reduz emissões sem depender de uma rede de recarga ainda incipiente. A empresa já instalou carregadores em sua própria rede de concessionárias para garantir que os compradores do bZ4X tenham pelo menos um ponto de apoio.

Deibit Lozano foi ainda mais específico: dos 450 pontos de recarga mapeados na Colômbia, entre 25% e 30% não funcionam ou funcionam de forma intermitente por falta de manutenção, de conhecimento técnico ou por problemas de conectividade. “Isso gera uma rede quebrada, e uma rede quebrada destrói a confiança. O usuário não sabe se o carregador vai estar funcionando quando chegar.”

Lozano acrescentou que outro gargalo crítico é a entrega de wallboxes pelas montadoras: “Entregam um carregador para o usuário, mas também entregam um problema.” Em condomínios residenciais não há legislação clara sobre como conectar esses equipamentos, e os transformadores dos prédios não foram dimensionados para dezenas de veículos elétricos. “A Europa já passou por isso, e nós temos a oportunidade de não repetir os mesmos erros.”

O fundador da CIEN by IE enfatizou que o verdadeiro gargalo não é tecnológico, mas financeiro e regulatório. “A tecnologia a gente tem. O hardware está disponível. O que falta é confiança e modelos financeiros viáveis para implantar infraestrutura em larga escala. Já temos um plano de negócios para 600 conectores nos próximos 18 meses, mas precisamos que o Estado habilite, não que atrapalhe. São necessárias regras claras, incentivos reais e burocracia ágil.”

Soluções em andamento: parcerias, CAPEX e uma rede que conecte regiões

Diante desses desafios, os dois participantes apresentaram soluções concretas que já estão implementando. Martín García destacou que a Toyota incluiu no preço do bZ4X tanto um carregador de emergência quanto um wallbox, e firmou parcerias para cobrir parte da instalação elétrica residencial. Ele convidou os usuários céticos a testar a tecnologia híbrida pelo Kinto Share – sentindo na prática a redução de consumo em engarrafamentos e conhecendo a autonomia estendida que ultrapassa 700 km em condições reais. “Se você ainda tem medo do elétrico, comece com um híbrido. É a porta de entrada para a eletrificação.”

Deibit Lozano, por sua vez, anunciou que a CIEN by IE está desenvolvendo uma rede de 100 estações de recarga nos próximos 18 meses, focadas nos principais corredores viários do país para quebrar a barreira da mobilidade entre cidades. A empresa já identificou pontos estratégicos nas concessões de pedágio que opera e está implementando recarga ultrarrápida para permitir viagens intermunicipais sem ansiedade de autonomia.

Mas a inovação mais disruptiva é o modelo de free CAPEX (sem investimento inicial): “Se você tem uma vaga de estacionamento subutilizada, a gente analisa o mercado, avalia a viabilidade e coloca todo o investimento. Você cede o espaço, e nós instalamos, operamos e mantemos a infraestrutura de recarga. Assim você gera renda passiva enquanto ajuda a construir a rede que o país precisa.” Esse modelo já está disponível para comércios, unidades residenciais, estacionamentos e empresas.

Além disso, Lozano adiantou que a CIEN by IE está construindo fazendas solares próprias para garantir a disponibilidade de energia das suas estações de recarga, antecipando fenômenos como El Niño e o aumento da demanda elétrica. “Não podemos depender só da rede. Precisamos de energia 100% sustentável e descentralizada.”

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O papel do Estado, da academia e dos benefícios tributários: um chamado para não ficar parado no banco de reservas

Tanto Martín García quanto Deibit Lozano concordaram que nenhum ator consegue vencer essa partida sozinho. García fez um apelo explícito para que sejam mantidos os benefícios tarifários, o ICMS diferenciado e as isenções de retenção que hoje incentivam a chegada de veículos eletrificados e componentes de infraestrutura à Colômbia. “Não percamos de vista que esses benefícios são temporários. Precisamos concentrar esforços coletivos para preservá-los enquanto o ecossistema amadurece.”

Lozano foi mais enfático: “O maior erro seria esperar o Estado fazer o que o mercado já está pedindo aos gritos.” Na visão dele, o setor privado tem capacidade de investimento e conhecimento técnico para acelerar a transição, mas precisa de regras de jogo claras – especialmente sobre recarga em condomínios, conexão à rede elétrica e homologação de carregadores rápidos.

“Na Europa eles já passaram por isso. Nós temos a vantagem de aprender com os acertos e erros deles. Não podemos ficar para trás.”

Andrés García, moderador do webinar, encerrou este bloco destacando que a Colômbia tem muitas “partidas pela frente”: armazenamento de energia, repotencialização de subestações, mobilidade elétrica em frotas de carga e a necessária integração entre geração renovável e eletromobilidade. “Não é só um tempo, é uma longa temporada. Todos temos que entrar em campo.”

O próximo grande encontro em Medellín

O webinar terminou com uma mensagem de otimismo e um convite aberto para continuar construindo soluções presencialmente. Andrés García agradeceu aos participantes e ao público e lembrou que a conversa não termina aqui.

“O que falamos hoje é apenas o primeiro tempo. O segundo tempo será jogado no Latam Mobility Colômbia 2026, o evento de mobilidade sustentável mais importante da região.”

A data é 10 e 11 de junho no Orquideorama do Jardim Botânico de Medellín – um cenário natural e icônico que vai sediar duas jornadas intensivas de painéis, workshops, networking e apresentações das últimas inovações em mobilidade elétrica, hidrogênio, biocombustíveis e infraestrutura de recarga.

Lá, Martín García e Deibit Lozano se encontrarão novamente com outros líderes do setor, além de representantes do governo, da academia, investidores e empreendedores.

O convite é aberto a todos os atores do ecossistema: empresas, frotas, síndicos de condomínios, concessionárias, operadores de rede, geradores de energia e cidadãos interessados em fazer parte da mudança.

A Latam Mobility espera transformar Medellín no epicentro da mobilidade sustentável da região – mostrando que a Colômbia está pronta para vencer a partida da mobilidade do futuro.