No âmbito do encontro “Latam Mobility Colômbia 2026”, realizado em Medellín, aconteceu o painel “Transição para a Mobilidade Zero e Baixas Emissões: Desafios de Mercado, Regulação, Financiamento e Escalabilidade”.
A conversa, moderada por Helmer Acevedo (Senior Researcher do International Council on Clean Transportation – ICCT), reuniu seis atores do ecossistema: Andrés Chaves (presidente da Andemos), Camilo Vélez (presidente da Sufi), Evelio Molano Martínez (Offer Manager Solar & Grid SAM da Centelsa By Nexans), Katherin Uribe (diretora de Desenvolvimento Estratégico da Sistema Verde), María José Bernal (diretora executiva da Fenalco Antioquia) e Santiago Ángel (diretor de Governo, Comunicações e RSE da General Motors).
Ao longo da sessão, os painelistas concordaram com um diagnóstico compartilhado: a Colômbia vive uma aceleração histórica na adoção de veículos de baixas e zero emissões, mas a transição ainda enfrenta gargalos críticos em infraestrutura, regulação, financiamento para PMEs e economia circular.
O diálogo deixou claro que não há uma receita única – o futuro da mobilidade sustentável vai depender da capacidade de articular políticas estáveis, investimentos coordenados e uma mudança cultural profunda.
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Crescimento Explosivo do Mercado: Números que Transformam o Panorama
O painel começou com um diagnóstico do estado atual do setor. María José Bernal (Fenalco Antioquia) trouxe dados que definiram o tom da conversa: entre janeiro e maio de 2026, as vendas de veículos elétricos cresceram 217% na Colômbia e 288% em Antioquia na comparação com o mesmo período de 2025. Os híbridos, por sua vez, aumentaram 72% em nível nacional.
“A tendência do consumo mudou. O comprador agora é exigente e opta por alternativas de mobilidade muito mais sustentáveis,” disse ela, alertando que esse crescimento não foi acompanhado por uma expansão equivalente da infraestrutura de recarga, o que gera uma lacuna que ameaça frear a dinâmica positiva.
Santiago Ángel (General Motors) complementou a análise com um olhar de longo prazo. Ele lembrou que, há poucos anos, os veículos elétricos representavam menos de 1% das vendas, enquanto hoje alcançam cerca de 15%. “Se somarmos os híbridos, cerca de 50% da frota nova é de novas energias. Ninguém mais na região tem isso,” enfatizou.
Ángel atribuiu essa conquista a uma combinação de oferta crescente, incentivos bem calibrados e maior consciência ambiental. No entanto, alertou que os veículos pesados e de carga enfrentam desafios tecnológicos ainda não resolvidos – como autonomia e peso das baterias – o que torna sua eletrificação mais complexa.
Andrés Chaves (Andemos) concordou que o mercado respondeu favoravelmente, mas focou na fragilidade desse crescimento. “A Colômbia é um país com uma vocação intervencionista muito alta, mas representa apenas 0,22% do mercado automotivo mundial. Não podemos influenciar as grandes decisões globais, mas podemos afugentar o investimento com regulamentações locais contraditórias,” alertou. Para Chaves, a estabilidade regulatória não é um detalhe menor – é a condição de possibilidade para o setor continuar sua expansão.
Camilo Vélez (Sufi) trouxe a visão financeira. Ele revelou que, há três anos, apenas 20% dos negócios da Sufi estavam ligados à mobilidade sustentável; hoje esse número chega a 64%. “Financiamos mais de 3.000 unidades por mês e temos uma carteira superior a 6 trilhões de pesos. Nossa contribuição não são apenas taxas, mas uma proposta de valor integral,” explicou. Ele destacou que a financeira teve que evoluir seus modelos de crédito tradicionais para atender segmentos como o caminhoneiro autônomo e as PMEs, cujos fluxos de caixa não se encaixam nos padrões bancários convencionais.

Infraestrutura de Recarga e Rede Elétrica: Os Desafios Técnicos do Presente
Um dos pontos de maior consenso foi a necessidade urgente de expandir e modernizar a infraestrutura de recarga. María José Bernal apresentou números que mostram a magnitude da defasagem: em Medellín, há um eletroposto para cada 377 veículos elétricos; em Envigado, a proporção despenca para um a cada 1.968 veículos. “Precisamos de um roteiro claro para fechar essa lacuna,” destacou. Ela também mencionou o desafio da recarga residencial, especialmente em edifícios antigos que não foram projetados para suportar a demanda adicional.
Evelio Molano (Centelsa By Nexans) transferiu o debate para a rede de distribuição elétrica, que chamou de “as artérias da eletromobilidade”. Ele apontou que grande parte da infraestrutura atual data das décadas de 1950, 1960 e 1970, o que limita severamente a capacidade de transmissão. “Existe tecnologia de condutores que permite dobrar a capacidade de corrente com a mesma infraestrutura. O cabo existe, é certificado pelo RETIE. O desafio não é técnico – é de atualização e de vontade política,” enfatizou.
Molano também destacou a necessidade de capacitação técnica para eletricistas, engenheiros e comunidades, bem como a simplificação dos trâmites de conexão. “A venda de veículos não será mais uma discussão entre concessionárias, mas entre quem tiver a melhor rede de distribuição,” sentenciou.
Santiago Ángel concordou que o círculo virtuoso da eletromobilidade só se completará quando os usuários puderem viajar sem medo para qualquer lugar do país e encontrarem estações de recarga confiáveis. “Há anos, os provedores de infraestrutura diziam que não instalavam recarga porque não havia demanda suficiente. Hoje a demanda existe. Agora cabe a todos nós apoiar o crescimento das estações,” afirmou. Ele alertou, no entanto, que sem uma rede robusta e incentivos estáveis, a confiança do consumidor pode se fragilizar.
Por sua vez, o moderador Helmer Acevedo introduziu um tema adicional: o fenômeno El Niño, cuja probabilidade de ocorrência ultrapassa 90% no segundo semestre do ano, com alta possibilidade de ser severo. Molano respondeu que as energias renováveis são seguras, mas exigem armazenamento, e citou o exemplo do Chile, onde os sistemas BESS (baterias de armazenamento energético) estão se massificando junto com parques solares e eólicos.
“A Colômbia deveria começar a massificar essa tecnologia para não depender tanto dos fenômenos climáticos,” propôs, e insistiu na necessidade de atualizar o RETIE para facilitar o acesso a essas soluções.
Regulação e Incentivos: A Instabilidade Como Freio
O segundo grande bloco do painel girou em torno da política pública e seu impacto na confiança do investidor. Andrés Chaves foi contundente ao se referir à recente imposição de uma tarifa de 25% sobre veículos de zero e baixas emissões, medida que classificou como “um estímulo perverso”. “Não podemos estar regulando carros. Estamos regulando necessidades das pessoas: o abastecimento das cidades, a competitividade do país e a mobilidade urbana. Se colocarmos o fardo no cidadão, isso nunca funcionará,” afirmou.
Além disso, ele lembrou que a idade média da frota automotiva colombiana ultrapassa 19 anos em veículos particulares e chega a 21 anos em carga pesada, o que evidencia a urgência de políticas de reposição – e não de penalização.
Santiago Ángel apoiou essa visão e acrescentou que os incentivos devem ser mantidos ao longo do tempo. “Toda vez que há mudança de governo, vem a discussão sobre o que deve ser mantido e o que não. A recomendação é que, tomara, o que existe seja mantido,” pediu. Ele apontou que os veículos pesados e de carga enfrentam desafios tecnológicos adicionais (autonomia, peso das baterias, viabilidade econômica); portanto, encarecer ainda mais esses produtos é contraproducente. “Essa política faz com que esse mercado não consiga decolar na mesma velocidade e intensidade que os leves,” concluiu.
María José Bernal acrescentou a voz do empresariado. “Os empresários exigem uma regulamentação simples, clara e estável. Chega de mudanças a cada quatro anos. Precisamos de confiança para tomar decisões estruturais,” afirmou. Ela destacou que o rodízio de veículos, os benefícios tarifários e tributários pesam enormemente na decisão de compra, e pediu que essas ferramentas sejam mantidas a médio e longo prazo. Também mencionou que a infraestrutura viária é outro componente esquecido: o crescimento da frota automotiva não foi acompanhado por investimentos equivalentes em estradas e conexões.
Camilo Vélez concordou que a estabilidade regulatória é fundamental para que o setor financeiro possa oferecer produtos de longo prazo. “Não pode haver um vai e vem. A confiança se constrói com regras claras que perduram,” defendeu.

Financiamento Inclusivo: O Caminhoneiro Autônomo e as PMEs
Camilo Vélez aprofundou um tema pouco visibilizado, mas importante: o financiamento para pequenos transportadores e PMEs. “O grande desafio não são as grandes empresas com leasing, mas a PME e o caminhoneiro autônomo. Temos que sair dos estudos de crédito tradicionais e entender sua realidade: seus contratos, seu fluxo de caixa, sua operação,” explicou.
Ele revelou que a Sufi desenvolveu modelos de crédito flexíveis por meio de sua divisão Consumer Finance, que se afastam da banca tradicional para atender esse segmento. “É preciso acreditar e apostar nesse modelo de negócio,” afirmou.
Como marcos necessários para massificar o financiamento sustentável, Vélez mencionou três elementos: estabilidade regulatória, percepção clara de ganhos para os negócios e geração de confiança no ecossistema de mobilidade sustentável. “Se resolvermos isso, tenho certeza de que seremos muito mais contundentes no desenvolvimento, tanto no caminhoneiro autônomo quanto em qualquer setor da mobilidade,” concluiu.
Andrés Chaves apoiou essa abordagem ao apontar que, sem políticas de reposição da frota e linhas de financiamento acessíveis, a transição se tornará mais lenta e desigual. “Não se trata de vender mais carros novos, mas de substituir veículos velhos e poluentes por outros mais seguros e limpos. Isso exige recursos públicos e privados trabalhando juntos,” afirmou.
Economia Circular: O Elo Invisível, Mas Vital
Katherin Uribe (Sistema Verde) introduziu um aspecto que adiciona outra dimensão: o que acontece com os resíduos gerados pela transição. “Não entendemos a mobilidade sustentável se não olharmos também para o fechamento do ciclo. Há 10 anos trabalhamos na gestão circular de pneus usados, baterias chumbo-ácido e embalagens do setor automotivo,” explicou.
Uribe fez um alerta de longo prazo: num prazo de 8 a 15 anos, a Colômbia enfrentará uma avalanche de baterias de íon-lítio em desuso. “O crescimento acelerado da mobilidade elétrica é maravilhoso, mas precisamos de infraestrutura, pesquisa e tecnologia para dar uma solução ambiental. E hoje não contamos com uma política clara nem com incentivos para isso,” apontou.
Ela propôs três sinais-chave para o próximo governo: estabilidade regulatória, manutenção dos incentivos e regras do jogo para 15 ou 20 anos.
Também reivindicou um maior acompanhamento da responsabilidade estendida do produtor, para evitar que as empresas que cumprem as normas ambientais concorram em desigualdade com aquelas que não o fazem. “Há muitas empresas que investem recursos importantes para fechar o ciclo de seus resíduos, mas outras ficam de fora. Isso é concorrência desleal,” denunciou.
Helmer Acevedo valorizou a intervenção de Uribe como um chamado para não ficar apenas na euforia das vendas, mas para planejar o fim da vida útil dos componentes desde agora.


Olhares de Futuro: Mensagens ao Próximo Governo
No encerramento do painel, o moderador pediu a cada participante uma mensagem direta para o próximo presidente da Colômbia. As respostas refletiram um diagnóstico compartilhado, mas com ênfases diversas:
Andrés Chaves (Andemos): “A transição energética no setor automotivo é um fenômeno das pessoas. É preciso regular o estritamente necessário e facilitar que as pessoas continuem se apropriando dela. Sem estabilidade regulatória, sem política de reposição da frota automotiva, estaremos condenados a ter frotas velhas e poluentes por muitos anos mais.”
Camilo Vélez (Sufi): “A mobilidade é uma necessidade básica para as pessoas e empresas. Deve ser uma indústria de muita atenção, desenvolvimento e estabilidade. Precisamos que o novo governo entenda que financiar a mobilidade sustentável não é um ato de caridade – é uma aposta na eficiência e competitividade do país.”
Evelio Molano (Centelsa By Nexans): “Precisamos do apoio à indústria manufatureira colombiana. Há empresas que cumprem todas as normas e exportam. Que o novo governo entenda que a transição energética também se faz com indústria nacional. Nem tudo pode ser importado. A rede elétrica é construída por todos nós.”
Katherin Uribe (Sistema Verde): “Fortalecimento às empresas. São elas que geram o impacto econômico, a pesquisa e o desenvolvimento. Que o presidente as tenha muito em conta na sua agenda. E que não se esqueça de que a sustentabilidade não termina quando o veículo sai da concessionária – termina quando seus resíduos também têm um destino ambientalmente seguro.”
María José Bernal (Fenalco Antioquia): “Sem segurança não há confiança para o investimento. Este setor requer investimento estratégico e relações de comércio exterior. Menos impostos e menos regulamentações: o empresário dedica mais de 5.000 horas por ano para atender às regulamentações do Estado. A alíquota efetiva de tributação ultrapassa 70%. Para cada 100 pesos que uma empresa ganha, 70 vão para o Estado. O próximo governo terá que ter uma habilidade única para cortar gastos públicos, diminuir impostos e renegociar a dívida. Tudo isso são sinais para o investimento.”
Santiago Ángel (General Motors) não esteve presente no encerramento por compromissos de agenda, mas durante o painel deixou uma mensagem clara: “A recomendação é que, tomara, o que existe (em matéria de incentivos) seja mantido. A Colômbia vem fazendo o dever de casa direito. Não desmontemos o que custou construir.”
Uma Transição com Regras Claras e Trabalho Articulado
O painel “Transição para a Mobilidade Zero e Baixas Emissões” deixou várias certezas.
Primeira: o mercado colombiano já mudou. Os consumidores estão escolhendo massivamente tecnologias limpas, e os números de crescimento (217% em elétricos, 72% em híbridos) provam isso.
Segunda: a infraestrutura não está acompanhando o mesmo ritmo – há déficits críticos em eletropostos, redes de distribuição elétrica e recarga residencial.
Terceira: a regulação se tornou um fator de incerteza em vez de um facilitador, com medidas como a tarifa de 25% gerando alarme no setor.
Quarta: o financiamento para PMEs e caminhoneiros autônomos exige modelos inovadores que saiam dos padrões bancários tradicionais.
Quinta: a economia circular não pode continuar sendo o elo esquecido – as baterias de lítio, os pneus e as embalagens precisam, desde já, de um roteiro de gestão.
Sexta – e talvez a mais transversal –: sem confiança, sem estabilidade e sem articulação público-privada, a transição será mais lenta.
Como resumiu Helmer Acevedo no encerramento: “Estabilidade regulatória, condições que favoreçam o investimento, visão de longo prazo, fortalecimento da rede elétrica, regulação clara na economia circular e proteção parcial da indústria nacional nos setores onde somos potencialmente bem-sucedidos. Essa é a receita que este painel nos deixa.”
2026: um ano de consolidação para a mobilidade
A Gira Latam Mobility 2026 continuará em Santiago, no Chile, no dia 25 de agosto, reunindo especialistas e atores estratégicos para fortalecer cada vez mais o ecossistema de mobilidade sustentável na região.
O roteiro terminará na Cidade do México nos dias 12 e 13 de outubro, junto com o Fórum de Economia Climática (Climate Economy Forum) , em um encontro que reunirá referências do setor para seguir impulsionando a transição para sistemas de transporte mais eficientes, sustentáveis e de baixas emissões na América Latina.
A transição já está em curso. A Gira 2026 da Latam Mobility será o ponto de encontro para acelerar decisões, conectar atores‑chave e construir, de forma colaborativa, a mobilidade sustentável da América Latina.



